Este jornalista teve passagens por diversos veículos em anos anteriores e, entre 2014 e 2015, conduziu o site Play’n’Biz, voltado para o mercado brasileiro de jogos digitais e negócios. À ocasião, vale relembrar, tive a oportunidade de conquistar, pela primeira vez, a honrosa parceria de Renato Degiovani – então game designer e editor já consagrado pela produção de criações memoráveis, como Amazônia e a direção da revista Micros Sistemas – e realizei a cobertura de alguns dos eventos ligados a esse mercado. O Um Indie por Dia de hoje resgata um destes históricos de produções que ganharam visibilidade e premiações mas que foram abandonados em razão da falta de um circuito promotor dos jogos brasileiros daquele período.

Em 2014, teve início o projeto de incentivo à produção nacional Prêmio Brasil Criativo, uma modalidade de premiação brasileira que recebeu a chancela do Ministério da Cultura como a premiação oficial da Economia Criativa no país, que abriu espaço para o reconhecimento de jogos digitais como um recurso voltado aos processos educativos e culturais para a população. Vale lembrar, não muito antes disso, a então ministra da Cultura, Marta Suplicy, fez questão de elucidar o Brasil, alardeando que “Game não é Cultura” (lembra?).

Já àquela época, surgiam de todas as partes do país trabalhos que buscavam aliar a característica lúdica dos jogos digitais a processos de aperfeiçoamento e aprendizado. No final daquele ano, os desenvolvedores do grupo Arretado Games, da Bahia, estavam no páreo na primeira edição do prêmio, concorrendo com Rei das Quentinhas, game voltado ao empreendedorismo que apresentava o cotidiano de um pequeno negócio do ramo alimentício e com condições de crescer ou entrar em dificuldades e gerar prejuízo a partir das escolhas de condução do jogador.

A criação do estúdio era apresentada como um simulador de empreendimento pessoal voltado a estimular o empreendedorismo, onde o jogador tinha condições de compreender por meio do gameplay o funcionamento de um negócio e desenvolver suas habilidades de gerenciamento a partir dos desafios que surgiam como resultado da administração do restaurante trazendo questões logísticas e exigindo criatividade na elaboração dos produtos a serem oferecidos.

Telas do jogo

A tela do jogo oferecia os controles necessários para administrar o empreendimento, da cozinha às interações para as vendas do comércio. O resultado do jogo dependia, segundo os desenvolvedores, diretamente da forma como o jogador conduzia suas decisões em várias frentes, como o atendimento aos clientes, o gerenciamento do estoque, ampliação do ambiente de trabalho e até as estratégias de marketing a serem adotadas. Para ajudar no encaminhamento dos desafios, o jogador podia contar com o Sr. Auxílio, personagem que se apresentava como um consultor habilitado a ajudar em qualquer etapa do jogo. O game oferecia oportunidades extras envolvendo a possibilidade de combinar ingredientes para criar novas receitas, capazes de gerar bônus adicionais, motivando o jogador a perseguir novas metas.

Can Game, Dungeonland e O Rei das Quentinhas: o vencedor do Prêmio Brasil Criativo e os concorrentes

A produção do jogo contou com a participação do programador Antonio Pedro Ferreira, do diretor de Arte Jansen Grizenti de Araújo e ilustrações de Uilson de Freitas Fernandes.

A produção do Arretado Games conquistou um segundo lugar, como semi-finalista do prêmio nacional Brasil Criativo de 2014 junto a outros projetos de destaque como Dungeonland, da Critical Studio – que ganhou um respeitável review de Renato Degiovani no último mês de abril, e Can Game, do estúdio Life Up, de Pernambuco, trabalho inovador apresentado como um aplicativo idealizado para ajudar na educação e no desenvolvimento crianças e adultos autistas, por meio de brincadeiras, que sagrou-se o vencedor na categoria game do prêmio Brasil Criativo naquela primeiro ano da iniciativa.

Como se vê ainda hoje com certa frequência no país, não há quaisquer outros registros de trabalhos ou produções do estúdio baiano, sugerindo que seus desenvolvedores devem ter optado, em algum momento, por outros caminhos para seguir profissionalmente e pagar as contas. Uma rápida busca pelos nomes dos profissionais envolvidos na criação identifica que, de fato, outras vertentes do mercado se mostraram mais lucrativas ou com maiores chances de garantir o futuro. Até mesmo o prêmio em questão, após dez anos de apoio à produção de cultura nacional em várias áreas, parece ter deixado de existir, sem novas informações sobre o programa desde 2024.

Lamentavelmente, uma clara demonstração do apagamento de nossa memória cultural, algo que o Indie Brasilis luta diariamente para resgatar.

Nome: O Rei das Quentinhas
Plataforma: PC
Desenvolvedor: Antonio Pedro Ferreira
Publicadora: não há
Gênero: simulação
Número de jogadores: um
Data de lançamento: 2014

Imagem: reprodução

1-Indie/Dia é uma série de textos criados de forma complementar aos artigos produzidos originalmente para o livro Indie Brasilis, abordando com maior profundidade as informações encontradas na mídia tradicional e em conteúdos online os dados sobre os jogos, com os links direcionados para as notícias originais. Outros artigos da série podem ser visualizados por meio deste link.

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