Os anos 90 parecem ter se cristalizado como o período mais rico na produção de jogos digitais voltados ao gênero horror ou, ao menos, a década que definiu este segmento, que ganhou apelo universal, a partir de títulos como Gabriel Knight, Phantasmagoria, Dark Seed, The 7th Guest, Resident Evil e, é claro Silent Hill, para ficarmos apenas nos mais conhecidos.
É singular, portanto, que um game brasileiro voltado à mesma temática tenha optado por ambientar seu universo narrativo neste mesmo período, mas é o que vemos em Asleep, game piauiense que traz referências conceituais e visuais ao árido Nordeste do Brasil, em uma trama de mistério e suspense.
Criado pelo estúdio Black Hole Games, o jogo apresenta a protagonista Ana Lúcia, uma jovem que se encontra perdida em pesadelos constantes e que parecem cada vez mais reais. Para conseguir manter sua sanidade, a jovem precisa desvendar os muitos mistérios que envolvem a trama do jogo, coletando pistas em um sketchbook e resolvendo os quebra-cabeças encontrados em pontos distintos deste processo.
Asleep é um jogo point-and-click 2D que apresenta uma boa quantidade de de criaturas e personagens intrigantes, com quem a personagem deve interagir para colher pistas que levam ao entendimento do contexto que envolve a sombria condição da protagonista da aventura.
Como afirmava a equipe de desenvolvimento na página do financiamento coletivo realizado em 2021, o Asleep “é uma carta de amor aos jogos clássicos de terror”, buscando influências na cultura brasileira e nordestina, “tão pouco explorada em jogos do gênero”.
“Tudo começou com a ideia de um jogo regional, onde uma protagonista lidava com seus dilemas internos através de viagem astral, tendo até um aspecto mais cartunesco. Antigamente o jogo até se chamava Insônia, mas logo o projeto evoluiu conforme eu amadurecia como desenvolvedor, aí encorpou e ganhou uma roupagem mais séria e um visual mais realista pra combinar com o terror. E então, em 2018, Asleep surgiu como conhecemos hoje, um jogo de terror ambientado no nordeste brasileiro dos anos 90, especialmente inspirado em Piripiri, minha terra natal” comentou Décio Oliveira, artista e game designer do projeto, em entrevista a Aric Lages para o site Conecta Piauí.
O visual do jogo se baseia, como já indicado, em uma grande quantidade de cenários inspirados em localidades reais da cidade natal do desenvolvedor. Piripiri é uma cidade pacata do interior do Piauí, cheia de histórias, lendas e locais emblemáticos, perfeitos para ambientar um game de terror. Estes elementos constituem um universo rico de referências que aproximam conceitualmente o cenário do jogo das locações vistas em Silent Hill, da Konami, talvez a maior referência do time para o desenvolvimento do projeto.
A criação remete, como afirmou Décio, aos jogos clássicos de terror “Tem uma história emocionante, intrigante. Tem uma história de mistério, saber o que está acontecendo, resolver quebra-cabeças, enquanto você escapa dos inimigos. Então, é a mais a questão da descoberta, da própria trama”, avaliou o designer, em conversa com Josiel Martins, em abril de 2021, para o site do programa Globo Esporte.
A produção oferece diversos elementos para permitir uma interação imersiva com o ambiente criado, a exemplo de um sistema de iluminação que possibilita se proteger e/ou atrair seus inimigos, um sistema de medição de vida da personagem baseado no seu nível de sanidade, mecânicas de stealth para exploração de ambientes perigosos, a presença de documentos e itens a serem coletados que incrementam o enredo e uma série de quebra-cabeças clássicos e inovadores, que compõem uma narrativa densa com várias escolhas pelo caminho e múltiplos finais.
O designer já havia se aventurado pela produção do terror em jogos digitais, com a criação de The Last NightMary – A Lenda do Cabeça de Cuia, de 2015, que ganhou a atenção de fãs em todo o mundo e vendeu mais de 35 mil cópias em vários países, fornecendo a experiência necessária para seguir com novas propostas.
A equipe do Black Hole Games foi composta durante o período de produção do jogo por Décio Oliveira, idealizador do projeto, artista e game designer, Juliana Almeida, Matheus Vilarindo, Bruna Soares, Felipe Resende, Ludmila Monteiro, David Stéfano (Kael Angeli) e um “programador tão misterioso quanto a própria Analu”.
O jogo conseguiu atingir o financiamento necessário para a continuidade da produção junho de 2021, e teve seu primeiro capítulo lançado em maio de 2024, na loja virtual Steam. A plataforma nacional Nuuvem também comercializa o game e conta com Asleep – Ato 2, que dá continuidade à história.
Imagem: fotomontagem
