Apesar de um negacionismo anacrônico em uma expressiva parcela da população brasileira, para quem não existiu a escravidão ou, mais recentemente, o trabalho análogo à essa condição (o que é crime, vale lembrar), não faltam recursos da cultura contemporânea dedicados a impedir que esta dolorosa memória do Brasil excludente seja esquecida, entre obras literárias, produções midiáticas em geral e, claro, jogos digitais. Criações como Escravo, nem pensar!, produzido em 2014 pela desenvolvedora paulistana Flux Game Studio, ou Angola Janga, produção de 2020, do estúdio Sue The Real, mostram que o tema segue atual e necessário, encontrando no entretenimento digital uma excelente forma de disseminação.
Mandinga – A Tale of Banzo, game desenvolvido pelo Uruca Game Studio, é mais um destes trabalhos que destacam a luta contra o sistema escravocrata que foi norma no país. e o objetivo do jogo é vencer os algozes e conquistar a liberdade. A narrativa do projeto se situa no período colonial do Brasil Imperial, resgatando aspectos históricos deste momento da nação, especialmente no que se refere à parcela escravizada da população.
“Tivemos muito cuidado ao tratar desse tema. Nossa intenção nunca foi roubar o protagonismo da luta antirracista, apenas narrar fatos históricos que vêm sendo distorcidos e que ainda são pouco conhecidos das pessoas”, explicou Philippe Lepletier um dos responsáveis pela criação, em entrevista concedida ao site Metrópoles, à ocasião do lançamento do projeto, em outubro de 2021.
A realização inspirou-se na ideia original de Suâmi Abdalla-Santos, mestre em História e criador de outros games com temática histórica, como Back to Dust – Hold it Together, de 2025, que trata das vítimas do genocídio em Gaza, ou Hell Clock, que se apropria do contexto da Guerra de Canudos, e trabalho foi desenvolvido pelo brasiliense Philippe Lepletier, fundador do estúdio Uruca.
O resultado da parceria entre os designers apresenta os heróis Akil e Obadelê, dois homens sequestrados no continente africano para servirem como mão-de-obra gratuita do trabalho realizado em muitas das fazendas brasileiras na era colonial. Os escravizados conseguem fugir para o Quilombo do Urubu (Orobu) e, ao longo do caminho, devem enfrentar figuras clássicas reconhecidas pela brutalidade escravocrata daqueles dias, como feitores, capitães do mato, bandeirantes, mercenários e, completando o panorama de terror e desespero dos fugitivos, animais selvagens aleatórios pela vastidão da floresta.
Nestes momentos de conflitos, os criadores idealizaram um modelo de gameplay que faz uso de um contexto de crenças e características dos povos tradicionais e afrodescendentes. Isso significa que, sempre que os personagens vivenciam confronto com seus rivais, poderão evocar diferentes orixás e suas habilidades místicas para ajudar nas batalhas, detalhe que pode ser de grande utilidade em tais situações.
Lahiri Abdalla, o roteirista, aprofundou o universo conceitual da trama, buscando destacar as diferenças entre as culturas, crenças e idiomas das diversas etnias do povo africano. Akil, por exemplo, é um muçulmano e intelectual de origem mandinga, enquanto Obadelê é um forte guerreiro Iorubá e mestre da capoeira. “Mostrar as individualidades de cada um quebra esse estereótipo de que todos os escravizados eram iguais”, ressaltou o desenvolvedor na conversa realizada em 2021.
O game promove batalhas em turnos, similar aos clássicos da terceira geração de consoles, a exemplo de SNES e Mega Drive.
Mandinga – A Tale of Banzo está disponível para aquisição na loja virtual Steam ao preço de R$ 26,49.
Fonte: Metrópoles
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