Existe uma tradição curiosa no mundo dos videogames: basta alguma coisa não corresponder às expectativas para imediatamente ser decretada a sua morte. Morreu o console, morreu o PC, morreu o videogame nacional, morreu a mídia física e, de tempos em tempos, morre até a própria indústria dos games. Desta vez, quem parece estar com um pé na cova (a julgar pelos posts durante e depois) é a Brasil Game Show.

A edição de 2026, realizada entre os dias 9 e 12 de outubro, no Distrito Anhembi, em São Paulo, terminou cercada de críticas. Influenciadores, jornalistas e visitantes apontaram corredores menos movimentados, ausência de grandes empresas, redução de estandes e uma presença aparentemente desproporcional de espaços destinados à alimentação. Alguns chegaram a descrever um clima de fim de festa, mesmo confessando que não tinham ido presencialmente ao evento.

Mas será que a BGS realmente flopou? Ou estamos tentando avaliar uma feira de 2026 com os mesmos critérios que utilizávamos dez ou quinze anos atrás? Comecemos pelas críticas, porque elas não surgiram do nada.

O Canaltech publicou uma comparação entre as edições de 2016 e 2026, destacando a ausência de grandes marcas e a redução das atrações. O Save State foi ainda mais direto, observando que a área de alimentação ocupava aproximadamente 30% do pavilhão e que os estandes de maior porte estavam concentrados principalmente na Nintendo e na SEGA. O Olhar Digital também reconheceu a menor presença de fabricantes de consoles, embora tenha destacado os jogos disponíveis para demonstração. Não são observações que possam ser simplesmente descartadas como implicância de influenciador.

Uma feira de videogames precisa oferecer videogames. E quando desaparecem empresas capazes de montar atrações grandiosas, apresentar novidades e proporcionar experiências exclusivas, alguma coisa importante se perde. Por outro lado, convém lembrar que a BGS não foi exatamente um deserto tecnológico.

Segundo a organização, houve 18 títulos disponíveis para jogar antes do lançamento, centenas de estações de demonstração, nove convidados internacionais e a participação de empresas como Nintendo, SEGA, Square Enix, Activision e Devolver Digital. A programação também incluiu competições, apresentações musicais e encontros com personalidades. É pouco? Talvez, dependendo do preço do ingresso e da expectativa do visitante. É suficiente para decretar o encerramento da feira? Certamente não.

Uma das críticas que mais me chamaram a atenção foi justamente a relacionada aos espaços vazios. Durante anos, ouvimos reclamações sobre corredores congestionados, filas intermináveis e dificuldades para circular entre os estandes. Agora, quando aparentemente existe mais espaço para caminhar, isso também se transforma em motivo de descontentamento.

É claro que uma coisa não exclui a outra. Um corredor vazio porque ninguém apareceu não é a mesma coisa que um corredor amplo, que proporciona conforto e segurança. Além disso é preciso reconhecer que a experiência do visitante não melhora obrigatoriamente quando colocamos mais pessoas por metro quadrado. Muito pelo contrário.

O problema de analisar uma feira exclusivamente por fotografias ou vídeos mostrando o movimento dos corredores, num dia exclusivo para imprensa e vips, pode levar a equívocos. Quem pretende registrar multidões pode enxergar fracasso onde uma família encontra conforto. Quem procura grandes estandes pode ignorar uma experiência interessante num espaço pequeno. E quem passou o dia inteiro tentando encontrar um influenciador favorito talvez nem tenha percebido quais jogos estavam disponíveis.

De certa forma, pareceu mais importante mostrar ruas praticamente vazias e reportar o que se viu em suas bolas de cristal particular do que relatar um tempo maior aos games indies que lá estavam. Isso não é sintoma de falência mas de falta de visão.

Há quinze anos, uma feira como a BGS representava uma oportunidade relativamente rara de conhecer lançamentos, experimentar equipamentos e ter contato com empresas que pareciam existir apenas nas páginas das revistas especializadas.

Hoje, anúncios importantes acontecem em transmissões digitais, trailers circulam instantaneamente, demonstrações podem ser baixadas em casa e influenciadores apresentam novidades praticamente todos os dias. O que antes justificava uma viagem para São Paulo pode ser acompanhado confortavelmente do sofá. Então por que alguém continua frequentando uma feira?

Na reportagem da ClutchZone, criadores de conteúdo descrevem a BGS cada vez mais como um ponto de encontro entre comunidades, fãs e personalidades da internet. O contato presencial aparece como uma experiência que nenhuma transmissão consegue reproduzir integralmente.

Uma feira que nasceu como vitrine de produtos pode estar caminhando para se tornar um grande encontro de comunidades. Isso não significa abandonar os jogos. Significa compreender que eles também funcionam como elemento de ligação entre pessoas e isso é uma diferença importante.

O problema é que essa mudança precisa ser acompanhada por um projeto coerente. Não basta perder expositores e depois anunciar que a feira se transformou num encontro de fãs. Se a proposta é oferecer convivência, então é necessário investir em experiências coletivas, espaços adequados, atividades participativas e atrações que justifiquem o deslocamento e o ingresso. Caso contrário, teremos apenas uma feira menor tentando parecer uma feira diferente.

Também não podemos ignorar o contexto econômico. A pesquisa de setembro da Confederação Nacional do Comércio mostrou que 81,7% das famílias brasileiras estavam endividadas. Embora o índice tenha recuado ligeiramente em relação a agosto, o comprometimento médio da renda com dívidas chegou a 29,6%. Nesse cenário, participar de um evento em São Paulo pode representar um investimento considerável.

E não estou falando apenas do ingresso. Existem transporte, alimentação, hospedagem para quem vem de outras cidades e uma série de despesas adicionais. Quando o orçamento doméstico está apertado, o lazer precisa disputar espaço com compromissos muito menos divertidos. É perfeitamente possível que algumas pessoas tenham decidido acompanhar a BGS pela internet não porque perderam o interesse, mas porque simplesmente não podiam pagar pela experiência presencial.

Se o “clima”, percebido nas reportagens na internet, é que a feira está financeiramente inviável, perdeu definitivamente seu público e caminha inevitavelmente para o encerramento, faltam informações.

Até o momento que escrevo esta coluna, a organização não havia apresentado um balanço público de visitantes da edição de 2026 que permitisse uma comparação definitiva com os 306.798 registrados em 2025. Também não foram publicados dados completos sobre faturamento, rentabilidade, satisfação do público e retorno dos expositores. E sem esses números, decretar a morte da BGS seria mais exercício de adivinhação do que análise.

Aliás, a organização já confirmou a edição de 2027, novamente entre os dias 9 e 12 de outubro, com ingressos colocados à venda. Isso não garante o futuro do evento, evidentemente. Mas também não combina muito com a ideia de que as portas estão prestes a ser fechadas. Minha impressão, depois de examinar as diferentes avaliações, é que a BGS atravessa uma crise de identidade.

O modelo que ajudou a consolidar o evento já não oferece automaticamente os mesmos resultados. As grandes empresas mudaram suas estratégias, o público diversificou seus interesses, os custos aumentaram e a concorrência por atenção se tornou muito maior.

Ao mesmo tempo, existe uma comunidade que continua interessada em encontrar pessoas, experimentar jogos e participar presencialmente da cultura que acompanha todos os dias pela internet. A questão é descobrir se a BGS está conduzindo conscientemente essa transformação ou apenas reagindo às dificuldades à medida que elas aparecem. Porque são situações muito diferentes.

A conclusão que considero mais defensável é a de uma transição ainda mal resolvida, e não a de um fracasso terminal comprovado. A BGS precisa demonstrar que o novo formato oferece valor real ao visitante e aos expositores; não basta argumentar que o mercado mudou.

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