Foi assim que aconteceu. Não estou inventando nada. Se parecer coisa de doido, é porque é mesmo. Então vamos lá… Mas antes um aviso: esse texto contém palavras e expressões que podem soar esquisitas para pessoas mais jovens. Fique tranquilo, nenhuma é ofensiva.
Quando o NE Z80 chegou, em 1981, em minha casa trazido pelos Correios, comprado por reembolso postal via revista Nova Eletrônica, eu não sabia exatamente o que ia acontecer, mas estava muito, muito curioso sobre aquela máquina estranha. Computador, para mim naquela época, era o mainframe do DataCenter da PUC/RJ que sempre causava problemas pra todo mundo, pelo menos duas vezes por ano, na montagem das matérias eletivas do semestre. Era algo que todo mundo execrava (e culpava, evidentemente).
Antes preciso dizer que sempre, desde criancinha, eu usei máquina de escrever. Nunca fiz curso de datilografia e catar milho era a minha especialidade, mas no meu apartamento em Copacabana eu tinha três delas, incluindo uma moderna IBM 82c elétrica de esfera. Meu xodozinho.
Por isso, o que aconteceu na minha primeira utilização do NE Z80 foi surreal. Para digitar uma certa função era preciso apertar Shift e mais uma determinada tecla. Assim o fiz e nada. Várias tentativas e nada. Nada vezes nada. Já estava procurando a embalagem do micro porque esse, com certeza, tinha vindo com defeito. Mas ai a ficha caiu: não é Shift e depois a tecla, é junto. Igual aquela tecla que ativa as letras maiúsculas nas máquinas de escrever.
Santa paciência, Batman. O micro não estava com defeito. O defeito estava na frente dele. E, ao contrário de alguns usuários que conheci tempos depois, eu entendi de cara que “gravar em fita cassete” significava ligar o gravador em modo gravação e “transmitir” o programa da memória do micro para a fita e não ligar o gravador e ficar digitando a listagem do programa, como se isso gravasse alguma coisa.
Superado esses pequenos desconfortos de operar um equipamento que jamais tinha visto, igual ou semelhante, na minha vida, comecei os experimentos indicados pelo manual e raios, teria que aprender uma linguagem de programação chamada Basic. Anos mais tarde descobri, meio sem graça, que Basic queria dizer Beginner’s All-purpose Symbolic Instruction Code, ou seja, linguagem de programação para manés como eu.
Então vá lá: LET A=1. Mais óbvio é impossível – faça a variável A ser igual ao valor 1. Isso eu entendi de primeira e de segunda IF A = 1 THEN LET B = 3. Precisa explicar? Se A for igual a 1 então faça B valer 3. Virei programador da noite para o dia e tudo que precisava era “conversar num inglês ultra simples” com o computador.
Os dias, ou melhor as madrugadas, passavam mais rápido que o normal e em pouco tempo eu já ousava achar que seria capaz de fazer o jogo do adivinhe o número. O computador diz: diga o número entre 0 e 10 que estou pensando. Você escolhe um valor e ele diz se acertou ou errou.
Depois que parar de rir, pense por um instante: era o início de toda uma era de programação pessoal, doméstica como se dizia, e naquele momento eu tinha entendido como raios o tal do computador funcionava. Coisa boba, se vista com os olhos de hoje, mas um passo gigantesco para a humanidade (alguém já disse isso).
Programar em Basic é como coçar: você começa mas não sabe quando e se algum dia vai parar. Cada instrução nova que aprende é uma felicidade gigantesca. Faz com que os desafios se tornem mais sofisticados. Mais elaborados. Adquirir conhecimento é algo viciante.

Tempos depois conheci um Basic que não usava PRINT AT X,Y mas PRINT @X e um outro que usava DISPLAY. Mais adiante conheci um que não usava (a famigerada) numeração de linhas e outro que permitia mais de uma instrução por linha. O mundo não parava (e ainda não para) de evoluir e conhecer a linguagem Basic parecia ser o limite máximo que um micreiro poderia atingir.
Até o dia que li, não lembro onde, que assembler era a linguagem que o programador falava diretamente com o processador, sem intermediários. Humano falando direto com Deus. Se havia um programa que precisava ser rápido (e a palavra que vem à mente de todo mundo nesse ponto é games), ele tinha que ser escrito em assembler, mas o máximo de informação que eu tinha era: são zeros e uns, que viram um programa que o processador entende. Entende? Entende onde isso me obrigou a ir?
Como dizem: a curiosidade é a mãe de todas as descobertas, mas também dizem que a curiosidade matou o gato. Vai saber.
O que eu sei é que os jovens de hoje, que já nascem com um celular na mão mais potente que os computadores da Apolo 11 (aquela que levou o homem à lua em 1969) não tiveram essa chance de conhecer as “entranhas” compucabalísticas dos micro computadores pessoais. Isso não implica em nada ruim ou desabonador.
Apenas não passaram por esse tipo de diversão que, a exemplo das brincadeiras de rua, hoje são apenas lembranças.
