O tempo é inexorável e nos faz perder a medida de sua passagem, da mesma forma que nos leva a perder o foco das coisas e das pessoas que são importantes para nós e que deixamos passar. em 13 de abril de 2025, há um ano e dez dias, portanto, falecia Divino Leitão, um dos mais incansáveis e ilustres game designers da primeira geração de jogos digitais totalmente brasileiros.
Como escrevi para a edição número 30 da Jogos80, de dezembro de 2025, “no alvorecer da informática doméstica, início dos anos 1980, um jovem fascinado pelas possibilidades de criação do novo recurso estudou sozinho como programar e lançou, em 1985, um dos games brasileiros mais icônicos daquela década: Cavernas de Marte.”
“Divino Carlos Rodrigues Leitão, Divino Leitão para os amigos, mostrou-se desde sempre um inquieto criador de jogos e projetos ligados à diversão e ao entretenimento. Além de produzir jogos físicos e digitais, o profissional dedicou-se ao ensino do uso de tecnologias e foi colaborador da icônica revista Micro Sistemas, veículo que tentou manter vivo por meio da internet, mesmo após o encerramento da publicação”, relatei, buscando honrar a memória deste grande exemplo de tenacidade profissional e um amigo querido de muitos, mesmo que, com frequência, enlouquecesse a todos com sua rabugice crônica.
Perseverante, Divino criou seu primeiro game sem saber programar, estudando, batalhando, errando e conseguindo desvendar o funcionamento daquele equipamento de informática – um Timex Sinclair 1000 comprado com grande dificuldade – e produzindo um trabalho memorável, o Cavernas de Marte. “Após vencer estas barreiras, pesquisando constantemente sobre o assunto e lendo compulsivamente a revista Micro Sistemas, começou suas produções amadoras, até criar Cavernas de Marte, cujo título se inspirava na obra literária de Isaac Asimov, um de seus autores preferidos”, escrevi, em homenagem ao designer.
“Fiz o jogo e, como tinha que levar para algum lugar, [levei à] Ciência Moderna [que] era o point, na verdade era o único lugar que tinha [a comercialização de fitas cassete com gravações de games]”. comentou, em entrevista ao podcast Oldplayers, em maio de 2020. “Seu trabalho acabou chamando a atenção de José Eduardo Neves, dono da Ciberne, uma das software houses mais importantes da época, que o convidou para comercializar o produto: ‘o que você acha da gente colocar o seu jogo numa fita [cassete], produzir e vender’, teria afirmado o empresário a jovem desenvolvedor, segundo narrou ao entrevistador Emerson Renato do canal de vídeo.”
Em 2014, por ocasião da Copa do Mundo, Divino criou o card game Cartabol, jogo original baseado em inúmeras referências de jogos e dinâmicas lúdicas, como jogo da memória, jo-ken-po, dominó, jogo da velha e futebol. “Apesar de tantas referências, o Cartabol é extremamente simples, mas esta simplicidade é apenas aparente”, comentou Divino em bate-papo com este repórter, à ocasião do lançamento do projeto. “Se você gosta de usar o raciocínio lógico e estratégia, irá se surpreender com as possibilidades”, afirmou. Muitos projetos vieram nos anos posteriores, a exemplo de Taipan 1122, game desenvolvido em 2022 e outros trabalhos que jamais chegaram a ser comercializados, pois o criador era pródigo em não finalizar inúmeras de suas ideias, que permanecerão perdidas no tempo.
Na recém-anunciada revista Retro Sistemas, produção que integro com parceiros de longa data e, claro, Renato Degiovani, fizemos questão de produzir um artigo em homenagem a este compulsivo desenvolvedor, a quem tive o prazer de conhecer e que ficou zangado comigo por anos em razão de uma discussão tola sobre questões políticas nas redes sociais.
“Não cheguei a conhecer o jogo ‘Ilha do Presídio’ e por opção preferi não ver o aclamado filme [Ainda estou aqui] sobre aqueles anos que pintam com tanta intensidade, mas eu vivi pessoalmente e posso assegurar que não foram tão de ‘chumbo’ até porque na época eu estava justo do lado de quem acusam de ter sido o algoz, sim eu era militar e nunca vi acontecerem as tais torturas, embora tenha certeza que algumas ocorreram”, escreveu em resposta a um artigo que publiquei, relacionando o game de 2016, produzido pelo Utopia Game Studio, de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, com o trabalho ganhador do Oscar em 2025 na categoria melhor filme, de Walter Salles. À época, já havíamos nos reencontrado e nos reconciliado, mas ele não deixou de marcar posição, como era típico de sua índole.
O amigo nos deixou, mas continua a estar presente em nossas conversas e na memória dos que com ele conviveram, riram de suas histórias e de seu mau humor ranzinza. “A indústria de jogos BR deve muito a esse cara, que agora vai criar em outro patamar. Estava esperando pela melhora dele, pra contar sobre os novos projetos e para que participasse também”, escreveu, comovido, Renato Degiovani, que foi professor de game design e parceiro de Divino ao longo dos anos, na revista Micro Sistemas. Divino era, ao mesmo tempo, brilhante, cativante e irritante, mas nunca ignorado, onde quer que estivesse.
“E fico muito feliz de ver mais pessoas contando a história dos jogos no Brasil, pois conhecendo a história é possível entender o presente e buscar um futuro melhor”, vaticinou o nobre amigo, em uma mensagem que penso que talvez tenha sido dirigida a mim e ao Renato, naquela postagem criticando meu artigo. O Indie Brasilis continua firme em seu propósito de resgatar e registrar a história dos games nacionais, meu amigo, incluindo sua memorável passagem nessa cena.
É com muito orgulho e respeito que lhe prestamos esta póstuma homenagem, meu caro.
Imagem: fotomontagem
