O design brasileiro de games já esteve em pé de igualdade com as realizações internacionais em alguns momentos chave no passado, mesmo com o discrepante abismo tecnológico ou estrutural entre os estúdios nacionais e estrangeiros, com trabalhos que impressionavam pelo elevado nível técnico e conceitual, ainda que o resultado global em vendas ficasse abaixo do desejável frente à forte concorrência internacional. Neste quesito, por exemplo, é impossível não rememorar Outlive, o RTS da Continuum Entertainment, lançado em 2000 e que alcançou patamar semelhante a Starcraft, da Blizzard Entertainment, que chegou apenas dois anos antes.
Outlive foi um game de ação e estratégia que inovou em vários aspectos, mas não conseguiu conseguir vencer a rivalidade com o game contemporâneo da Blizzard, chegando a ser denominado como “um potencial adormecido que não deve ser desconsiderado só porque é um derivado”, de acordo com as impressões do articulista Tom Chick, publicadas na edição 2024 da revista Computar Gaming World, em julho de 2001.
O game também foi um dos sessenta trabalhos incluídos no projeto literário Indie Brasilis, como parte dos jogos dos Anos 2000, presente no Volume II, que trata dos primórdios das narrativas ficcionais digitais no Brasil, onde este redator, junto com o designer Renato Degiovani, relembrou outro importante detalhe sobre o projeto: “Outlive era uma produção ousada e tinha méritos memoráveis para a época, de tal forma que o projeto conseguiu chamar a atenção do mercado, a ponto da potente publicadora Take‐Two, que já produzia para todos os consoles daquele período (e dona de GTA), decidir bancar o game em terras norte‐americanas”, como descrito na obra.
Os desenvolvedores não pouparam esforços na criação, certo de terem um grande projeto nas mãos e que “não tinha como dar errado”, como chegaram a afirmar em uma das análises sobre a produção, que angariou muitos elogios pela inovação e pela surpreendente qualidade técnica. “Outlive é o primeiro game de estratégia feito no Brasil, e vem recebendo elogios da crítica e dos amantes dos games para PC, sendo também o primeiro jogo brasileiro a ser vendido fora do país. Estão previstas versões em Inglês, Alemão e Francês”, destacou a Folha de S.Paulo, em artigo que tratava da atualização do game, em janeiro de 2001, demonstrando as expectativas do time de desenvolvedores com o projeto.
Algumas decisões técnicas foram tão importantes para o game design e balanceamento da produção, que acabram sendo adotadas mais tarde pela concorrência, como lembra um dos responsáveis pela criação em uma entrevista concedida à Folha de S.Paulo, em 2010. “O ‘Outlive’ foi um jogo do qual nos orgulhamos. Nós éramos jogadores, e queríamos fazer o melhor jogo de estratégia, pelo menos em termos de jogabilidade, da época. Analisamos todos os outros jogos de estratégia da época, como ‘Starcraft’, ‘Command & Conquer’ e ‘Dark Reign’, tentando aproveitar o que cada um tinha de melhor e, em cima disso, adicionar mais melhorias. Por exemplo, no ‘Outlive’ as unidades eram capazes de utilizar automaticamente suas habilidades especiais, e tinham que pagar um custo de manutenção, para evitar tropas muito numerosas. Estas melhorias foram adotadas depois do ‘Outlive’ pela Blizzard em ‘Warcraft 3’, só para mencionar um exemplo”, comentou Alexandre Vrubel, então um dos ex-sócios da Continuum, na conversa com o jornal.
Outlive foi mais um daqueles lampejos do brilhantismo da produção nacional que parecia ter potencial luminoso mas acabou como mera fagulha no disputado mercado internacional de jogos, sem lograr êxito também no Brasil, onde obteve sucesso modesto, talvez pela modelo de comercialização ou pela falta de um contingente expressivo de brasileiros com computadores domésticos à época. Foi com surpresa, portanto, que o mercado nacional viu o ressurgimento do estúdio original e do game, com Outlive 25, produto refeito pelos desenvolvedores, retomando os aspectos que deram identidade ao projeto e atualizando processos que permitem resgatar um dos grandes trabalhos realizados no histórico do game design nacional, atualizando gráficos e inserindo novos elementos, como um modo multiplayer via Steam, por exemplo.
“Temos uma expectativa muito grande. A gente vê que o contexto do mercado hoje já é totalmente diferente e vai permitir um alcance maior”, afirmou Rafael Dolzan, outro dos cofundadores da Continuum, em entrevista concedida ao repórter Tiago Ribas, da ‘Folha’, em maio de 2025.
“A gente percebeu que o Outlive envelheceu muito bem. Passou-se 20 anos, mas você joga como se estivesse jogando um jogo atual. Nós confiamos muito nisso, ele [Outlive] ainda é muito legal e jogável, então resta melhorar questões pontuais de jogabilidade que não estavam muito boas. Vamos deixá-lo com uma interface bem satisfatória, tanto para o público daquela época quanto para o público mais novo”, explicaram Rodrigo Dal’Asta e Rafael Dolzan ao jornalista Renato Moura Jr., do Canaltech, também em maio do ano passado, falando sobre o relançamento.
Como forma de furar a bolha saudosista e trazer informações sobre o game hoje praticamente desconhecido e relançado, os desenvolvedores da Continuum lançaram uma série de vídeos que rememoram os bastidores da criação original e lançam luz sobre a nova empreitada, contextualizando este hiato e o empenho dos criadores e fazer de seu projeto original um novo sucesso comercial para brilhar no panteão de grandes games brasileiros.
Abaixo, você confere os vídeos de produção do estúdio e o trailer de Outlive 25.
Ficha Técnica
Nome: Outlive / Outlive 25
Plataforma: PC
Desenvolvedor: Continuum Entertainment
Publicadora: Continuum Entertainment
Gênero: estratégia
Número de jogadores: multyplayer
Data de lançamento: 2000 / 2025
Imagem: fotomontagem
1-Indie/Dia é uma série de textos criados de forma complementar aos artigos produzidos originalmente para o livro Indie Brasilis, abordando de forma mais completa e objetiva as informações encontradas na mídia tradicional e em conteúdos online dados sobre os jogos, com os links direcionados para as notícias originais.
