Quando se fala em indústria de games, muita gente pensa imediatamente em desenvolvedores, publishers, plataformas e jogadores. Mas existe um personagem silencioso nessa engrenagem: o jornalismo de games. É ele que registra a história, divulga projetos, analisa tendências e, em muitos casos, ajuda a construir a memória de uma indústria que está sempre em mutação.

No Brasil, o jornalismo especializado em jogos começou a ganhar forma ainda nas revistas impressas dos anos 80, 90 e início dos anos 2000. Foi nesse período que a cobertura de videogames passou a ser tratada como uma área própria dentro do jornalismo cultural e tecnológico, deixando de ser apenas um “espaço” na mídia para apresentar mídias exclusivas de conteúdo gamer. Com o surgimento da internet, esse espaço migrou rapidamente para os portais digitais, onde ganhou velocidade e volume de produção.

No decorrer dos anos 2000 surgiram diversos sites e portais que passaram a cobrir lançamentos, reviews e notícias da indústria. Alguns deles cresceram e se consolidaram como grandes veículos. Um exemplo é o IGN Brasil, versão nacional do portal internacional de games, que se tornou um dos maiores sites do segmento na América Latina e cobre eventos e lançamentos globais do setor.

Outro exemplo é o Voxel, criado em 2007 (originalmente Baixaki Jogos), que produz notícias, análises e reportagens sobre videogames e faz parte de um dos maiores grupos de tecnologia do país.

Também surgiram iniciativas independentes importantes, como o Critical Hits, fundado em 2012, que mistura notícias, análises e conteúdo de opinião voltado ao público gamer brasileiro.

Mas talvez o aspecto mais interessante da imprensa de games brasileira seja a diversidade de modelos editoriais que surgiram com a internet.

De um lado estão os sites que funcionam quase como portais de notícias rápidas. Eles publicam releases enviados por publishers, cobrem trailers, anúncios e eventos internacionais e ajudam a manter o público informado sobre o que está acontecendo no mercado global. Esse tipo de cobertura é importante, afinal o mercado de games é altamente internacionalizado.

Por outro lado, existe um grupo menor de veículos que tenta ir além do release. Sites que discutem indústria, bastidores, política cultural e desenvolvimento nacional. Um exemplo claro é o Overloadr, criado em 2014, que busca tratar jogos dentro de um contexto cultural e histórico mais amplo.

Outro projeto relevante é o Drops de Jogos, que dedica grande parte de sua cobertura à cena brasileira de desenvolvimento de games e aos jogos independentes nacionais. E, não poderia deixar de lado, o mais recente deles: o Indie Brasilis, nascido de um projeto de mapeamento da indústria de games no Brasil, desde o seu nascimento e o Quebrando o Controle, produção vinda diretamente do nordeste brasileiro e que está ganhando força no resto do país.

Essa diferença editorial revela um ponto importante: cobrir games não é apenas falar de jogos. O jornalismo especializado pode abordar tecnologia, economia, cultura, esportes eletrônicos, mercado e até política pública relacionada ao setor.

O problema é que, no Brasil, a cobertura do mercado nacional ainda é relativamente pequena. A maior parte da imprensa especializada continua focada em lançamentos internacionais, grandes franquias e consoles. Jogos brasileiros, estúdios independentes e questões estruturais da indústria costumam aparecer muito menos. Mas a tendência de melhora nesse setor já é uma realidade.

Isso acontece por vários motivos. O primeiro é econômico: sites dependem de audiência e publicidade, e grandes lançamentos internacionais atraem mais leitores. O segundo é estrutural: o mercado brasileiro de desenvolvimento ainda é fragmentado e muitas vezes pouco organizado em termos de divulgação.

Mesmo assim, há sinais de mudança. Nos últimos 10/15 anos cresceram iniciativas dedicadas à cena indie brasileira, transmissões de eventos locais e cobertura de festivais como o BIG Festival, a Brasil Game Show e showcases de jogos nacionais.

E esse talvez seja o ponto central para o futuro do jornalismo de games no país.

No entanto, a cobertura tradicional de games, baseada em reproduzir releases dos desenvolvedores, especialmente no Brasil, pode estar com os dias contados, em função principalmente da dinâmica (ou falta dela) do mercado. Hoje já existem sinais claros de que os vídeos de gameplay também não estão mais respondendo como em anos anteriores, ainda que youtubers famosos provoquem o delírio da garotada.

Aparentemente estaremos migrando nos próximos anos para algo mais próximo dos podcasts temáticos, ainda que os modelos genéricos de podcasts também estejam passando por uma peneira de interesse dos aficionados pelo modelo. Vale a pena ficar de olho nesses segmentos, pois as novidades em termos de cobertura provavelmente virão deles.

A imprensa especializada não serve apenas para informar jogadores. Ela também funciona como ponte entre desenvolvedores, público e investidores. Um jogo independente pode passar completamente despercebido sem divulgação adequada. Uma reportagem ou análise pode ser o primeiro contato do público com aquele projeto.

Num mercado em que milhares de jogos são lançados todos os anos, visibilidade virou um dos recursos mais escassos.

Se o desenvolvimento brasileiro de games quiser crescer de forma sustentável, não basta apenas formar programadores e artistas. Também será necessário fortalecer quem conta essas histórias.

Porque, no final das contas, toda indústria precisa de memória. E alguém precisa registrá-la antes que ela desapareça no próximo feed de notícias.

Leave a Reply