Tem sido comum que game designers brasileiros busquem nas obras literárias sua fonte de inspiração para a produção de projetos lúdicos interativos, como forma de proporcionar aos novos públicos um vislumbre, ainda que parcial, de contos clássicos e narrativas mais densas desta vertente cultural. Exemplos como Soul Gambler, do Tlön Studios, baseado em Fausto, de Goethe, e Investigação Póstuma, da Mother Gaia Studio, protagonizado por Brás Cubas, da obra de Machado de Assis, mostram que é possível dar vazão a estas tramas também por meio dos jogos digitais.

Neste panorama, temos A Nova Califórnia, game lançado em novembro de 2017, produzido pelo estúdio paulistano Game e Arte e inspirado no conto homônimo do autor Lima Barreto, que apresenta uma aventura no início do século XX em Tubiacanga, uma cidade fictícia e pacata do interior do Rio de Janeiro, que se vê envolvida em um chocante crime: o furto de ossos de defunto. Para dar conta do mistério que envolve a narrativa do jornalista e escritor pré-modernista brasileiro, que viveu no Rio de Janeiro entre 1881 e 1924, o estúdio de São Paulo optou por criar uma dinâmica na qual o farmacêutico da cidade conduz uma investigação que vai desvendando revelações pitorescas e curiosidades sobre a sociedade local.

Sendo um homem negro filho de ex-escravos em um país marcado por um preconceito maciçamente velado e no qual cidadãos desta linhagem parecem estar sempre em certa desvantagem social, a obra literária de Afonso Henriques de Lima Barreto não alcançou o público e o interesse da elite intelectual da época, sendo praticamente ignorada naquele dias e esquecida por décadas após sua morte, até ser redescoberta pelos fãs e acadêmicos da literatura brasileira. Seu estilo contundente talvez tenha sido muito impactante e denunciador para uma sociedade que buscava enterrar a vergonha escravagista, dotada do falso verniz de uma provinciana hipocrisia.

“Ele achava que os negros só poderiam ser socialmente integrados através da luta e do constante incômodo. Por isso, denunciava que a escravidão não acabou com a abolição, mas ficou enraizada nos menores costumes mais simples”, explicou a historiadora Lilia Schwarcz à revista Cult, autora da biografia “Lima Barreto, triste visionário”. “Foi um autor muito incompreendido em sua época, tanto que demorou muito e ainda tem demorado para entrar no nosso cânone de autores”, continuou a também antropóloga, na entrevista ao periódico.

Autor de Triste fim de Policarpo Quaresma (1915) e Clara dos Anjos (1922), além de uma ampla obra de outros livros e contos, Lima Barreto continua um ilustre desconhecido para o grande público brasileiro. Se o hábito da leitura não faz parte dos costumes culturais do país, é possível conhecer um pouco da sagacidade e do brilhantismo do autor através do game A Nova Califórnia, que coloca o jogador na trama criada pelo autor.

“Em nossa produção audiovisual, A Nova Califórnia, o primeiro fato que nos chamou a atenção foi o próprio tema: a ganância. A forma com que Lima Barreto, autor do conto original, abordava a questão da ganância, também fora decisiva: humor e sarcasmo”, escreveram os criadores do game no blog do estúdio, em 2018, um espaço virtual que traz também informações sobre o trabalho de resistência dos incansáveis profissionais da empresa. Nas palestras realizadas, os designers salientam os dados acerca das escolhas em ‘A Nova Califórnia’, e questões mais contemporâneas que impactam a vida das pessoas negras no desenvolvimento de games no Brasil, como a quase ausência de representatividade negra na indústria de jogos e “como o olhar diverso pode contribuir para ampliarmos nossa consciência sobre o peso cultural da mídia que trabalhamos e defendemos todos os dias”, avaliam.

No game, a população da cidadezinha de Tubiacanga passa a se comportar de forma suspeita e alvoroçada, em busca de uma fórmula para criar ouro. O conto é recheado do fino sarcasmo e da crítica mordaz característicos da produção literária o autor e os jovens desenvolvedores buscaram reproduzir algumas situações hilárias e bizarras descritas na narrativa tradicional. “A Nova Califórnia [o game] não tem a menor pretensão de substituir a leitura da obra original. Ao mesmo tempo, buscamos como principal método a reconstrução do ponto de vista de uma das personagens originais sob toda a história”, explicou Jaderson Souza, cocriador da produção, a este repórter, em maio de 2017.

A obra original, produzida em 1910 pelo famoso autor, é um apanhado de contos que destaca o comportamento por vezes inusitado e controverso do povo brasileiro. A criação do estúdio faz uso das narrativas dos contos e insere o jogador como personagem que vivencia o universo ficcional do autor, propondo situações que exigem decisões de cunho moral e raciocínio para desvendar a trama do jogo. Converter uma narrativa convencional em uma obra interativa exige, mais do que conhecimento em game design, uma aguçada percepção sobre o trabalho a ser adaptado, seu criador e os aspectos da cultura e da sociedade do eclodiram estas reflexões.

“Durante uma leitura diária, dessas sem compromisso, curiosamente um conto do início do século XX, nos chamou muita atenção. Era Lima Barreto nos mostrando parte de um Brasil de 1910, cuja ação principal de seus personagens nos pareceu muito semelhante às nossas ações atuais. Aquela história que, até aquele momento, nós não conhecíamos, mas precisava ser mostrada, ressurgir, e, porque não, ser vivenciada por mais pessoas. Após algumas pesquisas e ideias, não tínhamos mais dúvidas, o jogo tinha que partir daquela obra”, afirmou Tainá, parceira e cocriadora do projeto, na mesma entrevista.

“A Nova Califórnia busca colocar os jogadores e jogadoras nos sapatos de uma das personagens do conto original”, comentou Tainá, em bate-papo com a docente e pesquisadora de jogos digitais Julia Stateri, para o blog Oficina Lúdica. “Através da jornada de Bastos, boticário da pequena cidade de Tubiacanga, todos poderão vivenciar o mistério sob o olhar do farmacêutico mais ganancioso do Rio de Janeiro. Para transformar sua jornada em uma experiência jogável, mesclamos fases de ação e adventure. Enquanto ação, os aventureiros e aventureiras vivenciam o dia-a-dia nada ordinário de Bastos. Enquanto adventure, você é confrontado(a) com questões e princípios dos seres humanos, podendo construir ética ao jogar e conversar com seus amigos e amigas”, instruiu a desenvolvedora, convidando o público a interagir com este universo e ressaltando as escolhas presentes na condução do jogo, que colocam o jogador em conflitos relacionados à moral vigente naquele período republicano e à ética como modelo de cidadania nos tempos atuais.

A ética, de fato, é um dos elementos que norteiam as ações na construção da trama elaborada pelos desenvolvedores, que se pauta pela própria ótica do autor negro para criar momentos de reflexão e introspecção nos jogadores, como pontuou a criadora em outra conversa, dessa vez com o pessoal da Universidade Federal de Juiz de Fora, em 2017: “O Lima se diz negro, trata das temáticas negras nas obras dele, e nesse conto em especial, tem uma abordagem com os personagens negros bem interessante, que deflagra muito o racismo da época e sobre como o Bastos – o personagem player – trata essas pessoas. O jogador acaba ficando em um espaço muito interessante, entre ser ético com seus próprios valores ou não ser com o próprio jogador, o Bastos”, avaliou.

Jaderson Souza foi o desenvolvedor do jogo, ocupando as funções de programador, game designer, level designer e pixel artista e Tainá Felix ficou responsável por parte da adaptação do texto para o roteiro das fases, criação das personagens, além de dar pitacos na direção das cenas do jogo e atuou como produtora do game.

Aperfeiçoar o nosso conhecimento sobre a cultura negra, mesmo que apenas tangencialmente por meio de um jogo digital, pode ser um primeiro passo para não esquecer como o Brasil ainda é mantido à base de privilégios para alguns e preconceito e o esquecimento para outros. É também uma forma de garantir a disseminação da representatividade e da ampliação da diversidade no ambiente ainda tão monocromático dos games, no qual personagens não brancos parecem ser apenas algozes em GTA e demais produções do mainstream.

Com um enredo socialmente tão rico e uma jogabilidade tão cheia de intrigas e momentos que ressaltam o fino e sarcástico humor do autor original, o game da dupla mais do que vale o módico valor de R$ 24,90 para sua aquisição na loja virtual Steam.

Informações adicionais sobre os profissionais do estúdio Game e Arte podem ser conferidos no site oficial da desenvolvedora, que apresenta detalhes sobre outros trabalhos do time, como a Trilogia Sankofa Arcade e Amora.

Nome: A Nova Califórnia
Plataforma: PC
Desenvolvedora: Game e Arte
Publicadora: não há
Gênero: adventure
Número de jogadores: um jogador
Data de lançamento: 2017

Imagem: fotomontagem

1-Indie/Dia é uma série de textos criados de forma complementar aos artigos produzidos originalmente para o livro Indie Brasilis, abordando com maior profundidade as informações encontradas na mídia tradicional e em conteúdos online os dados sobre os jogos, com os links direcionados para as notícias originais. Outros artigos da série podem ser visualizados por meio deste link.