Janeiro de 2024. O grande amigo e parceiro de projetos editoriais Kao Tokio me convida para escrever uma coluna semanal para o site Quebrando o Controle, cujo tema eu poderia escolher à vontade. Adoro escrever sobre técnicas de construção de jogos, enredos, temas, experimentos e tudo relacionado a game design. Mas pra isso eu tenho o site TILT online desde 1997, então…
Lembrei dos tempos da revista Micro Sistemas, onde escrevia regularmente textos críticos, analíticos e opinativos. Sempre gostei de uma provocação, daí adotei o nome Por Um Punhado De Bits, uma singela homenagem de fã ao filme italiano Por Um Punhado De Dólares, de Sergio Leone, lançado em 1964 e que levou Clint Eastwood ao estrelato.
Portanto, nesta edição histórica, a de número 100, senti a necessidade de olhar para trás e destacar os textos que mais repercutiram, provocaram debates, influenciaram a comunidade e ajudaram a consolidar o olhar crítico sobre os jogos brasileiros e o contexto do desenvolvimento nacional ao longo de 2024, 2025 e 2026.
E como prometido na primeira publicação da coluna, tentei apenas e tão somente provocar os leitores. Dar a eles munição para pensar, para avaliar e tirar suas próprias conclusões sobre coisas que aconteceram, acontecem e acontecerão, por mais embaçada que minha bola de cristal seja. Afinal, pensar ainda não é proibido.
Mais do que um repertório de artigos, essa coluna forma um retrato crítico do que foi (e ainda é) importante para quem faz jogo no Brasil: desafios, perspectivas, tensões, cultura, mercado e política. A seguir, uma seleção dos 10 textos mais expressivos, na minha opinião (você pode e deve discordar).
As matérias selecionadas não tem links porque tanto o site Quebrando o Controle quanto o site TILT online tem o histórico completo das 100 edições até aqui. Para o site IndieBrasilis, iremos lançar em breve um livro online, com todas as colunas de 2024 a 2026, em um formato sem banners, sem propaganda e ultra confortável para você ler no seu celular.
Jogue Antes Que Acabe – reflexão sobre a efemeridade dos jogos digitais e o risco de obras desaparecerem por descontinuação, servidores fechados ou mudanças de plataforma. Defende a preservação e o consumo consciente enquanto ainda é possível. Um alerta sobre memória e legado no meio digital.
Artesanato Digital – compara o desenvolvimento indie ao trabalho artesanal: feito à mão, com identidade própria e limitações produtivas. Valoriza o cuidado individual na criação de jogos e critica a padronização industrial. Um elogio à autoria e ao detalhe.
A Ciência De Regar Plantas – usa a metáfora de regar plantas para discutir ritmo, paciência e maturação de projetos. Nem acelerar demais, nem abandonar cedo demais. Uma reflexão sobre timing, persistência e crescimento sustentável no desenvolvimento de games.
Precisa Ser Presencial? – durante o ano vários eventos acontecem e representam uma oportunidade para expor o seu jogo. Mas será que vale a pena o investimento?
Autoria – discute o conceito de autor nos games: quem realmente assina uma obra coletiva? Explora responsabilidade criativa, identidade e reconhecimento em projetos colaborativos. Um olhar filosófico sobre criação digital.
Da Game Jam À Game Job – examina como eventos como game jams podem funcionar como porta de entrada profissional. Mostra a transição entre hobby, experimentação e carreira. Um guia prático sobre transformar prática em oportunidade.
Diversidade: Progresso Ou Patrulha? – debate diversidade nos games sob duas óticas: avanço cultural legítimo ou vigilância ideológica excessiva. Analisa inclusão, mercado e liberdade criativa. Provoca reflexão sem simplificações fáceis.
Por Onde Eu Começo? – voltado a iniciantes, aborda o primeiro passo no desenvolvimento de jogos. Ferramentas, foco, escopo e realismo nas expectativas. Incentiva começar pequeno e aprender fazendo.
Tá Sobrando Uma Graninha Aí? – trata do mercado secundário (?) relacionado ao comércio de itens, skins e demais objetos dentro de um game. Muita gente ainda não percebeu o tamanho desse segmento.
A Steam Não Te Odeia – desmistifica a ideia de que a plataforma é hostil aos iniciante. Analisa temas como visibilidade e responsabilidade do próprio desenvolvedor. Uma chamada à autocrítica estratégica.
Chegar na edição 100 não representa apenas um marco numérico mas uma prova de que existe público interessado em pensar jogos como cultura, mercado, política e tecnologia. Por Um Punhado De Bits se firmou como um espaço necessário de crítica e reflexão em meio ao barulho de notícias rápidas e postagens efêmeras.
Ao celebrarmos este momento, agradeço a você leitor, que acompanha, comenta, questiona e participa ativamente desse diálogo. Os jogos brasileiros são feitos por pessoas, e pessoas que pensam e criticam constroem um setor mais forte, consciente e duradouro.
E que venham as próximas 100 colunas.
