A produção de jogos digitais brasileiros nunca esteve tão alinhada às questões sociais do país e do caráter identitário das pautas de grupos de resistência e busca de condições mais equânimes para as camadas menos favorecidas pelas políticas ainda vigentes que privilegiam as elites da nação.
Embora temas como os questionamentos sociais existentes em jogos como Aventuras em Serra Pelada, Amazônia e Em Busca do Tesouro estejam presentes no game design nacional desde a aurora desta produção cultural brasileira, os jogos da mais recente leva de desenvolvedores da última década têm dado atenção redobrada a problemas e dramas nacionais nem sempre objeto da atenção das mídias tradicionais, trazendo para o debate fatos que são cotidiano nas periferias do país e questões de ordem ética que colocam em xeque muitos valores tradicionalistas de nossa sociedade e que merecem revisão.
É com Roller Heist que os criadores de jogos do estúdio Ânimacídio querem dar o seu recado, mais do que oferecer diversão ao público gamer. Com uma estética que lembra clássicos da virada do milênio, como Jet Set Radio e Tony Hawk’s Underground, Roller Heist aposta em uma temática que ultrapassa o entretenimento sobre rodinhas, criando um ambiente no qual, longe de ser apenas um ladrãozinho de museus, o personagem central busca fazer justiça aos mitos e culturas ancestrais saqueados pela ganância dos caçadores de tesouros e expostas sem pudor nos grandes museus do mundo.
Se a ideia lhe parece absurda, basta saber que, em 2023, o Museu Nacional da Dinamarca confirmou a devolução de um raríssimo manto Tupinambá do século XVII ao Brasil, peça sagrada que estava em Copenhagen desde 1689 e é considerada uma das 11 remanescentes no mundo. A peça foi repatriada em 2024 para integrar o novo acervo do Museu Nacional no Rio de Janeiro.
O Brasil também já obteve a repatriação do fóssil “Ubirajara jubatus” da Alemanha e centenas de artefatos indígenas do Museu de Lille, na França, e esta breve pesquisa se limita somente à cultura brasileira, deixando evidente que a sanha internacional pelos objetos históricos de outros povos e nações é, desde sempre, uma das grandes apropriações culturais dos países dominantes sobre as terras submetidas às suas investidas predatórias.
“É um jogo de ação em que você precisa controlar um personagem que vai recuperar peças saqueadas em museus pelo período de colonização”, explicou o designer visual Cristian Novelli, artista 2D e produtor do estúdio, em vídeo gravado pela equipe do Brasília Game Festival. “A gente está tentando instigar um tema de reparação histórica através do jogo, fazer com que a gente possa recuperar as peças que estão expostas em museus, por exemplo, os europeus, e devolvê-las aos países de origem”, continuou, destacando a importância do caráter social e decolonialista da proposta.
“Roller Heist é um jogo de heist e ação explosivo em que você usa patins e uma arma de paintball para recuperar peças roubadas de museus, promovendo a reparação histórica. Deslize pelo museu, evite seguranças e devolva as peças ao seu local de origem enquanto se movimenta com estilo!”, convida o texto de apresentação do projeto no Steam. “Mesmo que você não tenha pensado nisso antes, aqui está sua chance de recuperar tesouros saqueados, retirados de seus legítimos países durante o período de colonização, séculos atrás”, sentencia o estúdio.
Para além das questões sociais elencadas pelo time, o game mostra excelente potencial não somente pela estética visual, mas pelo gameplay acelerado e intenso, com uma trilha musical que impinge urgência e estimula o jogador a continuar superando sua performance.
Roller Heist ainda não tem data confirmada para o lançamento, mas já pode ser incluído na lista de desejos na loja virtual Steam.
Imagem: fotomontagem
