Durante muito tempo, cultura foi tratada no Brasil como sinônimo de um conjunto limitado de expressões tradicionais. Cinema, teatro, literatura, música. Tudo isso é, sem dúvida, parte essencial da nossa identidade, mas não é mais suficiente para explicar o que está acontecendo hoje. A cultura mudou e quem ainda não percebeu isso está olhando para um país que já não existe.
A produção cultural contemporânea nasce, cada vez mais, em ambientes digitais. Ela está nos jogos, nos streamings, nos vídeos, nas comunidades online, nas linguagens que se formam em tempo real e que conectam milhões de pessoas todos os dias. Está no universo que, por muito tempo, foi chamado de “cultura geek” e é justamente aí que mora o problema.
O termo “geek” foi, durante anos, usado para segmentar ou tratar como nicho algo que, na prática, já se tornou central na vida cultural de uma geração inteira, mas, hoje em dia, não estamos mais falando de nicho. Atualmente, o Brasil é um dos maiores mercados de games do mundo, somos 5o país no mundo em número de jogadores de games, de acordo com a Newzoo. Segundo a Pesquisa Game Brasil 2026, cerca de 74,5% dos brasileiros afirmam jogar jogos digitais, o que representa mais de 150 milhões de pessoas, movimentando uma indústria que movimenta bilhões de reais todos os anos, o que transforma o ato de jogar em um fenômeno cultural de massa.
Isso é cultura estruturando comportamento. Jogos eletrônicos movimentam economia, criadores de conteúdo alcançam audiências gigantescas e comunidades digitais produzem, remixam e distribuem cultura em uma velocidade que nenhum modelo anterior conseguiu acompanhar. Milhões de jovens constroem sua forma de se expressar, de se relacionar e de entender o mundo a partir dessas referências. A linguagem, o humor, os símbolos e até os valores circulam por esses espaços.
Ignorar isso não é apenas um erro de análise. Sem reconhecimento, não há política consistente. Sem política, não há desenvolvimento. E sem desenvolvimento, o país perde a oportunidade de transformar produção cultural em geração de renda, inovação e projeção internacional. Durante décadas, desenvolvedores brasileiros criaram, inovaram e movimentaram a economia sem qualquer reconhecimento institucional. Com a consolidação do Marco Legal dos Jogos Eletrônicos, em que tive forte atuação, começamos a dar um passo importante: reconhecer que games são cultura, são indústria e são política pública. Mas isso precisa ir além.
Essa falta de reconhecimento tem sido motivo de organização popular e social. Em vários estados, associações e movimentos sociais da cultura geek – ou nerd – tem começado a surgir. Em Niterói (RJ), ajudei a fundar o movimento geek de Niterói, e as conquistas são notáveis: o maior evento gratuito do estado do Rio de Janeiro hoje, o Niterói Expo Geek, é financiado com recursos públicos, garantindo que ninguém precise pagar para usufruir do direito à cultura previsto na constituição federal de 1988. São quase 25 mil pessoas que se reuniram na última edição do evento em um único final de semana.
E reconhecer a cultura geek como cultura é uma decisão estratégica, que significa incluir essas produções nas políticas de fomento, nos mecanismos de financiamento, nas discussões sobre propriedade intelectual e nos programas de formação. Significa olhar para criadores – digitais e analógicos -, cosplayers, quadrinistas, produtores de eventos e afins como agentes culturais legítimos, bem como atualizar a forma como o país enxerga sua própria identidade.
O Brasil sempre foi potente na produção cultural, mas, com o aparecimento de novas linguagens e ferramentas – especialmente do mundo digital, mas não somente nele -, essa potência precisa ser organizada. Outros países já entenderam isso e avançaram na integração entre cultura, tecnologia e economia criativa e não trataram esses campos como separados. Tratam como parte de uma mesma estratégia de desenvolvimento.
Games são cultura. Criadores de conteúdo são cultura. Geek é cultura. E, mais do que isso, são economia. Reconhecer esse movimento é o primeiro passo. O segundo é agir. Porque não se trata mais de reconhecer um nicho, trata-se de reconhecer o presente.
Márcio Filho é Presidente da Associação de Criadores de Jogos do Rio de Janeiro (ACJOGOS-RJ), diretor executivo da GF Corp e especialista em Games e Sociedade.
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