O Agente Secreto, filme escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura, ficou sem o Oscar na cerimônia que acaba de premiar o norueguês Valor Sentimental com a estatueta de Filme Internacional de 2026.
Resumidamente, a história de O Agente Secreto mostra a sina do ex-professor e viúvo Armando Solimões durante a ditadura militar brasileira, em 1977, jurado de morte por um executivo e ex-ministro do governo militar que busca se apropriar da patente de sua pesquisa acadêmica. A obra foi eleita o melhor filme de 2025 pelo site The Hollywood Reporter e escolhido pela revista britânica The Economist para integrar sua lista de melhores filmes de 2025, ao lado do também brasileiro Ainda Estou Aqui.
O histórico quase apagado na memória popular com a repressão e as torturas vividos no período ditatorial no Brasil, entre 1964 e 1985, e a emoção contagiante com a expectativa de um novo Oscar, após a conquista do prêmio no ano passado com Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, nos levam a resgatar Ilha do Presídio, produção brasileira pouco conhecida com uma década de existência que se inspira em mais um dos horrores da ditadura no Brasil para produzir um thriller de terror psicológico, valoriza o gameplay sem perder o foco nos fatos históricos.
O game Ilha do Presídio, produzido pelo enxuto time de jovens desenvolvedores do Utopia Game Studio, no Rio Grande do Sul, restitui os horrores do Estado de Exceção dos anos de chumbo no país na forma um jogo de terror psicológico que se passa em uma ilha real, utilizada durante a ditadura militar para alojar presos políticos e presos comuns, como explicaram os desenvolvedores à época de sua produção, no início de 2016.
Uma das histórias mais conhecidas sobre os tenebrosos acontecimentos da ilha é o caso das mãos amarradas’, que narra os suplícios do sargento Manoel Raimundo Soares, preso e torturado no Dops e posteriormente levado para a ilha:
“Às 8h da manhã, Manoel Raimundo Soares ainda sofria violência. Era queimado à ponta de cigarro, que os policiais apagavam lentamente sobre as suas carnes. Recebia pontapés e pauladas (…) foi posto no pau-de-arara. Recomeçaram as torturas do cigarro aceso. O Delegado Itamar passa a bater com os fios. Findo o tratamento, Soares parece um trapo. Ele ainda está só de cuecas, as costas a sangrar e uma das vistas fechada…Levam-no então para a sala do fiscal Olinto, chefe da guarda do DOPS. Está semi-inconsciente”, relatou Luis Renato Pires de Almeida, estudante de agronomia da UFRGS, também confinado na ilha de terror, segundo o estudo de 2008 “A escrita de si na situação de tortura e isolamento: as cartas de Manoel Raimundo Soares“, da pós-doutora pela Unicamp Susel Oliveira da Rosa.
O jogo inspirou-se na temática desta triste passagem da história do Brasil para inserir o jogador em uma atmosfera de terror, na qual desvendar a história dos acontecimentos na ilha é parte da condução narrativa, com direito a chocar-se com os horrores que não surgem pela interação com monstros e com o sobrenatural, como acontece normalmente nos games do gênero, mas pela própria perspectiva da crueldade humana registrada em cada ambiente de opressão e torturas.
Grande parte da pesquisa dos desenvolvedores foi fundamentada nos relatórios publicados pela Comissão da Verdade, que detalharam os horrores sobre a realidade na ilha. “Os documentos da Comissão da Verdade falam que inseriam ratos e baratas nas genitálias das pessoas. Eram coisas absurdas que aconteciam e isso não é falado”, contou o designer Erik Cruz, ainda na conversa com Pedro Falcão, realizada em setembro de 2017, para o site da Vice, dando a dimensão dos absurdos acontecimentos tidos como ‘normais’ pelo governo daquele período e que precisam chegar ao público jovem. “A gente queria contar essas histórias através de novas mídias”, relatou o desenvolvedor.
Eduarda Lacerda, artista 2D da criação do time gaúcho, explicou que o gênero Terror estava saturado à época do desenvolvimento do game, levando-os a buscar outras formas de impactar os jogadores, por um caminho mais subjetivo e psicológico. “Percebemos que o menos é mais. A nossa proposta é deixar que o próprio jogador se assuste, e que ele crie o terror psicológico dentro dele’, sugeriu, em bate-papo com Lou Cardoso, para o jornal Correio do Povo.
A experiência com o jogo pode ser perturbadora e trazer, como resultado, uma ampla reflexão sobre os porões do Brasil, onde o assassinato daqueles que pensam diferente foi rotina para o grupo que governou a nação com truculência, propondo aos jogadores uma oportunidade parar a reflexão sobre os nos tempos nos quais uma Direita radical e raivosa mudar os fatos, recriando narrativas, escondendo as atrocidades cometidas em nome de um Brasil varonil.
No capítulo do livro Iindie Brasilis, redigido por este repórter e por Renato Degiovani, ainda por ser publicado, finalizo com as seguintes ponderações: “Se as pessoas que trabalham com jogos digitais no Brasil vivem alardeando que ‘Game é Cultura’, faz-se necessário termos clareza que muito da cultura brasileira segue sendo apagada ou voluntariamente esquecida por agentes que buscam reescrever a história com cores que favoreçam seus interesses pessoais e políticos, algo que nossas instituições não deveriam permitir jamais”.
“Os games precisam ser instrumentos de diálogo com a sociedade e, como sabemos, toda sociedade é, desde as Ágoras da Grécia Antiga, essencialmente política”.
Mesmo sem conquistar a estatueta do Oscar com O Agente Secreto, como fez Walter Salles em 2025, Kleber Mendonça Filho, Wagner Moura e o time de desenvolvedores da Utopia Games merecem reconhecimento e os parabéns pela sensibilidade em tratar com maturidade um tema tão urgente e complexo no recente filme e no game de estreia do estúdio, ainda hoje tão atual, embora tenha sido lançado em 2016.
Abaixo, reproduzimos o teaser do game Ilha do Presídio:
Imagem: fotomontagem
