O game design brasileiro tem mostrado desde seus primórdios com as criações iniciais como Amazônia e Cavernas de Marte, entre tantos outros, um nível técnico e uma qualidade visual e narrativa impressionantes, mostrando que nos faltou direcionamento de mercado e boas oportunidades para tornar o país um exportador de nossa cultura também por meio dos jogos digitais, situação que vem mudando com o reconhecimento de jogos nacionais em mercados externos e nas lojas dos consoles de grandes fabricantes. Neste panorama, Dandara brilha como um os mais renomados projetos recentes da cultura digital brasileira.
Produzido pelo estúdio Long Hat House, de Belo Horizonte, a produção inspirou sua narrativa na história de uma guerreira histórica brasileira em um fictício universo de opressão nos moldes da literatura de Geroge Orwell. O game leva os jogadores a imergirem na regiião de Salt, que se encontra à beira do colapso, com cidadãos oprimidos e desolados, que terão uma chance de renovar suas esperanças com a presença de Dandara, heroína que enfrentará as criaturas místicas do lugar, desafiando a gravidade e saltando sobre pisos, paredes e tetos, enquanto desvenda segredos escondidos e combate os inimigos dedicados à opressão, em busca da liberdade e equilíbrio no universo utópico criado para o jogo.
“Dandara, a personagem do título do jogo, é inspirada na heroína que, séculos atrás, enfrentou alguns dos momentos mais cruéis do passado brasileiro e se tornou um símbolo de luta por liberdade e dignidade. Embora o cenário do jogo esteja vagamente conectado à realidade, seu nome carrega muito significado para a história que contaremos”, explicaram os desenvolvedores em relato presente no site da empresa.
A produção logo chamaria a atenção da mídia especializada e da classe artística. Em 2020, por exemplo, o cantor, compositor e rapper brasileiro Emicida rendeu-se à qualidade do indie game Dandara nas redes sociais. Em sua conta no Twitter, àquela ocasião, o artista comparou o game a nada menos que “nosso Super Metroid”. Para Emicida, a trilha do jogo, composta pelo sound designer Thommaz Kauffmann, é “f#*@!”, síntese que, vinda da personalidade em questão, demonstra o reconhecimento com o cuidadoso trabalho do sound designer do jogo.
“A sonoridade mudou bastante nos dois anos de produção. No primeiro ano foram menos músicas e mais uma tentativa de encontrar algo que dialogasse com a narrativa pluridirecional da jogabilidade, que traz o mundo com um aspecto mais abstrato”, afirmou Thomaz, em bate-papo com o repórter Vitor Aliaga, para o IGN Brasil, em 2018, enfatizando que a sonoridade encontrada foi resultante do uso de “um conjunto de aparelhos acústicos.”
Não é apenas na ambiência sonora e nas referências à realidade escravagista que o game mergulha na cultura nacional, como descobrem os jogadores. O time do Long Hat House se esmerou no conteúdo inspirado nas características marcantes da cultura brasileira, sendo algumas bastante específicas da região de Belo Horizonte, cidade sede da desenvolvedora. Os elementos diversos, como o Mercado Central, os grafites de Raquel Bolinho nas paredes e os bares com mesas e cadeiras na calçada mostram o espelhamento dos costumes locais, bem como a presença de pinturas dentro das casas, que se revelam criações de Tarsila do Amaral, uma das mais importantes artistas do pais na fase do Movimento Modernista de 1922, que sabidamente tinha grande apreço pela estética mineira, com obras que retratam localidades como Ouro Preto, Congonhas, Tiradentes, Juatuba e de outras cidades das Gerais.
O game demorou pouco mais de dois anos para ser desenvolvido, segundo reportagem do Estadão, texto que enfatiza ser este “o segundo jogo da Long Hat House – o primeiro, Magenta Arcade, feito para dispositivos móveis, se destacou pelo visual e pela jogabilidade retrô, chegando a ser finalista do prestigiado Brazil’s Independent Games Festival (BIG Festival).”
Cientes da responsabilidade de converter um ícone histórico como uma guerreira afrobrasileira que lutou contra a opressão representada pela cultura escravocrata dominante em grande parte do período colonial do Brasil, Lucas Mattos e João Brant, os responsáveis por trás da criação da produtora, decidiram de forma consciente trabalhar em aspectos paralelos, sem entrar no mérito do legado deixado pela relevante personalidade histórica de nossa cultura afrodescendente.
“Somos caras de classe média. Não estamos diretamente ligados aos temas da escravidão. A gente teria que fazer uma pesquisa mais ampla para tocar no assunto, e isso poderia ter atrasado o lançamento do jogo. Optamos por tratar a questão da Dandara como a busca por liberdade, que é algo que pode ser bastante pessoal, tanto para nós como para os jogadores”, ponderou Brant, em entrevista concedida ao site O Tempo.
Aclamado em 2018 como um dos melhores jogos do ano, recebendo destaque internacional, incluindo a indicação a “Melhor Jogo Portátil” no D.I.C.E. Awards 2019. Foi eleito Jogo Brasileiro do Ano no Brazil Game Awards 2018. As qualidades do projeto também foram determinantes no reconhecimento da produção do estúdio mineiro, resultado que foi listado pelos editores da Revista Time como um dos 10 melhores jogos daquele ano e vencedor na categoria Apple TV.
“Em uma atualização radical do clássico jogo de plataforma 2D, os jogadores de Dandara saltam de ponto a ponto para ajudar a heroína titular (inspirada em uma abolicionista afro-brasileira do século XVII com o mesmo nome) a salvar seu mundo de Salt da misteriosa e infecciosa Ideia Dourada. Os belos gráficos e a ampla gama de ataques fazem com que a curva de aprendizado íngreme valha a pena.” , afirma o artigo da Time, assinado por Alex Fitzpatrick, Eliana Dockterman e Patrick Lucas Austin.
Entre os muitos reconhecimentos merecidos pela produção mineira, jogo brasileiro Dandara Trials of Fear Edition, atualização do game lançada em fevereiro de 2018 para consoles, foi escolhido como o Jogo do Ano para Apple TV, em premiação divulgada pela gigante dos iPhones, em dezembro de 2020, quando divulgou sua lista de melhores jogos e aplicativos daquele ano.
A atualização expandia a história com novas áreas a serem exploradas, chefes de fase e um final inédito, revitalizando o produto nacional, que já contava, à ocasião, com versões para para Nintendo Switch, Xbox One, PCs com sistemas Windows, MacOs e Linux, e dispositivos móveis para iOS e Android, demonstrado o sucesso da produção entre gamers mundo afora. A versão para PS4 de Dandara: Trials of Fear Edition foi publicada pela Raw Fury.
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