Nem todos os games desenvolvidos no Brasil se inspiram, necessariamente, na cultura e no folclore nacionais. O mais comum, de fato, é que tragam elementos de outros povos e regiões do mundo, de olho na possibilidade de disputar o mercado global de jogos digitais com o número expressivamente maior de clientes potenciais mundo afora do que os gamers brasileiros, ainda que esta não seja uma parcela inexpressiva de jogadores.
O assunto pode render uma boa discussão, que ficará para outra coluna, mas há jogos que podem trazer boas surpresas aos jogadores, mesmo com a temática surgida a partir de outros mitos, a exemplo de Legacy of Pandora, indie game em desenvolvimento pelo estúdio brasileiro OPP Studio, que parte do mito de Pandora, a mulher grega que recebeu dos deuses uma caixa misteriosa com a incumbência de jamais a abrir e desobedeceu a ordem, levando a humanidade a pagar pelo mal que se espalhou pelo mundo.
Na BGS 2025, em São Paulo, os desenvolvedores da criação ofereciam aos visitantes a oportunidade de conferir seu game, que traz a filha da mitológica personagem para cumprir a missão de restituir a ordem no mundo, em uma tarefa que inclui resgatar criaturas saídas do presente de grego do panteão divino e combater monstros que foram corrompidos pelo Mal que se espalhou por toda parte.
A reportagem do Indie Brasilis conversou com Ogari Pacheco, CEO do estúdio para conhecer os detalhes da produção e as qualidades de Legacy of Pandora. O projeto parte de um universo inusitado e divertido, que mescla referências históricas da mitologia ancestral da Grécia com um gameplay inspirado nos combates ao estilo dos monstrinhos de Pokémon.
No bate-papo realizado em frente ao estande do time, na área Indie da feira de entretenimento e jogos, o desenvolvedor comentou sobre os principais pontos do projeto brasileiro. Em Legacy of Pandora, o jogador conduz Pirra, filha da mitológica personagem grega Pandora, tentando recapturar os males que sua mãe liberou pelo mundo, ao abrir a caixa misteriosa.
O game se define pelo gênero monster-taming roguelike, que propõe o combate e captura das criaturas espalhadas pelo mundo. “Todos os nossos monstros podem ter várias formas, que se alternam, só depende da forma como você joga, de modo que há um componente narrativo importante, se você agir com violência, ganha pontos [nesse quesito] e evolui para essa forma, se for ganancioso, vai para essa forma, e tudo tem consequências”, explicou o idealizador do projeto.
Um dos diferenciais do jogo é que o sistema de progressão foge do tradicional, sem apresentar níveis, mas algo que o estúdio determinou como um sistema de corrupção, onde cada criatura evolui com base nas escolhas do jogador, permitindo evoluções diferentes a cada nova rodada, criando composições de equipes únicas e adaptando a estratégia ao estilo de jogo pessoal de cada um.
Ogari exemplifica o conceito por meio da figura do Minotauro: “Eu consegui [esse monstro], era o bicho que eu queria, então vou agir com violência contra outra pessoa. Talvez amanhã você encontre essa pessoa, o amigo dela ou o marido dela e vai ter alguma repercussão”, enfatizou.
Curiosamente, a premissa da criação surgiu a partir de uma campanha de RPG de mesa de Dungeons & Dragons, mantida por Ogari e amigos, envolvendo o universo de Pokémon. “O pessoal gostava muito do jogo e dizia ‘pô, queria que esse jogo tivesse opções de histórias, de eventos etc’, então decidi fazer esse jogo”, comentou empolgado o designer.
Ao unir elementos tão díspares, como D&D com Pokémons e mitologia grega, o estúdio brasileiro destaca a inventividade nacional no panorama global de jogos, mostrando que é possível avançar no design de jogos em quaisquer gêneros e chegar a resultados surpreendentes, com a realização de jogos que rompem com as tradições, seja em termos da cultura nacional, seja no inovativo desabrochar de um modelo totalmente diferente do que já foi feito e copiado centenas de vezes por toda parte. Um feito nada desprezível para a produção nacional de jogos fazer bonito lá fora.
Legacy of Pandora já conta com página na plataforma Steam, com previsão de lançamento oficial para breve.
Imagem: reprodução
