Até meados dos anos 90, era praticamente impossível encontrar um jornalista disposto a dar atenção a uma pauta relacionada ao desenvolvimento ou ao lançamento de um game nacional, como atestam vários dos artigos do livro Indie Brasilis, ainda em fase final de produção. Curiosamente, este fato se inverte alguns anos depois, com jogos que, mesmo antes de seu lançamento, acabam contando com uma profusão de textos acompanhando as fases de criação da novidade.

Foi assim, por exemplo, com Guerreiros Folclóricos, game que despertou o interesse da mídia especializada e até mesmo de alguns veículos mais tradicionais, talvez por unir dois elementos de apelo, isto é, os jogos digitais e as figuras do universo fantástico do folclore nacional, em um fighting game com um belo visual e um gameplay com tempero brasileiro.

“Estúdio baiano se inspira em ‘God of War’ para jogo sobre folclore nacional”, anunciava o Start, página dedicada aos games, no site Uol, outubro de 2015, divulgando a produção do projeto.

“Idealizado há mais de 10 anos, mas em desenvolvimento real por apenas alguns meses, o jogo ‘Guerreiros Folclóricos’, do estúdio baiano Unique Entretenimento Digital, quer atrair o público trazendo versões mais maduras de personagens como o Boto, a Mula Sem Cabeça e o Saci – semelhante ao que a Sony fez com a série ‘God of War'”, informa o artigo assinado pelo jornalista Victor Ferreira.

Joe Santos, o diretor de arte do jogo, explicou ao profissional ter sentido a necessidade de “colocar no mercado algo que comente sobre nossa cultura”. “Há pouco material, pouco conteúdo nesta área […] Conhecer outras culturas é interessante, mas a nossa é super rica e tem muitas vertentes de mitologia, e isso estava meio perdido, assim trouxemos alguns personagens menos conhecidos como Mapinguari, Alamoa, o Cambaí – que é bem desconhecido mas tem relação com o mito original do Saci”, declarou, destacando a opção do time pela manutenção de valores tradicionais da cultura brasileira na produção.

“A inspiração para nosso jogo [para trabalhar com a ideia de mitologia] foi o próprio God of War”, declarou o designer para Thais Stagni, do IGN Brasil. “Gosto muito de mitologia, e acredito que o nosso projeto possui o mesmo potencial. Usamos como meio de incentivar as pessoas a conhecerem mais sobre determinadas lendas [do folclore brasileiro]”, identificou na reportagem de agosto de 2017, ocasião em que o game tinha previsão de lançamento para o ano seguinte, para os sistemas PlayStation 4, Xbox One e PC.https:/

Para Henrique Almeida, do Boletim Nerd, o Guerreiros Folclóricos pretendia “colocar as lendas brasileiras nos principais consoles do mundo”.

“Na trama, as criaturas do reino Akakor (suposta cidade perdida na região da Amazônia), têm acesso livre a Terra, seja para proteger a natureza ou para aterrorizar suas vítimas. Contudo, junto a alguns seres malignos, o Saci tenta dominar o planeta, por acreditar que ‘a raça humana não era digna de tal dádiva’, mas acaba banido para o mundo das lendas, onde se torna rei e, após 300 anos, recruta generais para uma segunda investida”, resume o artigo de Almeida, concluindo que, para salvar a humanidade, o valente Kambaí é enviado a Akakor para derrotar os vilões. Segundo o desenvolvedor Joe Santos, Kambaí é baseado na história do Saci Verdadeiro e porta um colar, chamado Baêta, que lhe dá poderes sobrenaturais.

“Todo o projeto é feito com bastante estudo e conta com a consultoria do historiador Daniel Sena. Segundo Joe, eles não pretende parar por ai, onde será lançado um livro escrito pelo autor Mogg Mester (A Auriflama Do Caos) e há também o desejo de adaptar a história para as HQs”, afirmou Rildon Oliver, em artigo de agosto de 2016, para o site Cosmo Nerd.

O projeto seguiu com um grande empenho dos produtores e tinha verdadeiro interesse no prosseguimento do trabalho, até sua finalização e lançamento.

Ao Poranduba, um podcast produzido pelo site Colecionador de Sacis, dedicado às histórias fantásticas do folclore brasileiro e gravado em setembro de 2019, o desenvolvedor comentou as dificuldades do processo. “Eu fiz uma pesquisa de quanto mais ou menos se consegue arrecadar com alguém desconhecido – a gente era desconhecido – e com mais ou menos vinte a trinta mil [pessoas interagindo, interessadas no game] se conseguiria arrecadar”, explicou o designer do jogo ao locutor Andriolli Costa na gravação. “Infelizmente, o pessoal não tinha a cultura de contribuir tanto [e o projeto não foi financiado]”, esclareceu.

“Cada projeto é um projeto e as pessoas não deveriam deixar de tentar {investir nas suas ideias] porque nós aqui decidimos de uma hora para outra partir para uma outra estratégia”, avaliou no bate-papo online, comentando que o estúdio acabou conseguindo uma pequena verba proveniente de um edital da Bahia, “umas seis vezes menor que o projeto [exige] e, com isso, a gente está conseguindo tirar leite de pedra”, arrematou.

Não há informações sobre a continuidade ou o encerramento definitivo do projeto desde então. O livro Guerreiros Folclóricos (O Reino de Tupã Livro 1), escrito pelo criador sob o nome autoral Joel C.Santos, chegou a ser publicado em novembro de 2017 e pode ser adquirido na loja virtual Amazon.

Nome: Guerreiros Folclóricos
Gênero: Hack’n’slash
Platforma: PC
Desenvolvedor: Unique Entretenimento Digital
Publicadora: Não há
Lançamento: Sem informações

Imagem: Arkade

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