Se há algo que o cenário de games no Brasil provou recentemente é que ele segue vivo, inquieto e mais diverso do que aparenta à primeira vista, mesmo operando sob limitações históricas de financiamento, visibilidade e políticas públicas erráticas. O que mais importou não foi um grande hit isolado, mas o conjunto de movimentos que mostram amadurecimento criativo, profissionalização gradual e resistência cultural.
O maior destaque continua sendo a produção independente, que responde hoje pela esmagadora maioria dos lançamentos nacionais. Pequenos estúdios e desenvolvedores solo seguiram apostando em jogos autorais, muitas vezes com forte identidade cultural, experimentalismo mecânico ou discurso político explícito, algo que sempre diferenciou o Brasil no cenário indie internacional. Títulos narrativos, jogos de terror psicológico, adventures e experiências híbridas (entre game, arte e manifesto) continuam sendo o território onde o Brasil mais se expressa.
Eventos nacionais tiveram papel central nesse processo. SBGames, BIG Festival (agora integrado à Gamescom Latam) e Retrocon funcionaram como vitrines reais para jogos brasileiros, não apenas como espaços de networking, mas como ambientes de validação cultural. O BIG, em especial, segue sendo a principal porta de entrada internacional para produções nacionais, apesar das críticas recorrentes sobre curadoria, competição desigual e o risco de pasteurização estética.
A Gamescom Latam / BGS, por sua vez, mostrou avanços tímidos no espaço dado ao desenvolvedor brasileiro, mas ainda muito aquém do ideal. O contraste entre estandes milionários de grandes publishers e a precariedade estrutural de muitos indies nacionais segue sendo um retrato honesto da indústria local: talento abundante, recursos escassos.
Outro ponto relevante foi a continuidade da cena retrô e da preservação digital. Iniciativas independentes, coletivos, livros, eventos e relançamentos não oficiais reforçaram a importância histórica dos games brasileiros dos anos 80 e 90. Mais do que nostalgia, trata-se de reconhecimento: entender que existe uma linhagem criativa local anterior às engines modernas e aos editais.
No campo econômico, o ano foi marcado por expectativa frustrada em relação a políticas públicas. Incentivos específicos para games continuam diluídos entre audiovisual, inovação e cultura, sem uma estratégia clara. O discurso de “economia criativa” segue forte, mas raramente acompanhado de ações estruturais consistentes para quem desenvolve jogos no país.
Também merece destaque o avanço, ainda que controverso, de temas como diversidade, representatividade e crítica social nos jogos brasileiros. Enquanto parte do público reage com hostilidade, muitos desenvolvedores seguem tratando games como linguagem cultural legítima, não apenas produto de consumo. Isso gera ruído, cancelamentos e polarização, mas também identidade e relevância.
Por fim, talvez o aspecto mais importante: o Brasil segue produzindo jogos apesar do sistema e não por causa dele. O que se destacou não foi a exceção bem sucedida, mas a persistência cotidiana de quem lança jogos sabendo que dificilmente recuperará o investimento inicial. Em um mercado saturado, globalizado e brutalmente competitivo, continuar criando já é, em si, um ato heróico.
O cenário brasileiro de games não vive um momento dourado. Vive um momento real. E isso, para quem o acompanha há décadas, é um avanço que não deve ser subestimado. Ainda assim temos um problema crônico que tem sido insuperável: a falta de uma divulgação orgânica efetiva, das criações nacionais.
Participo de grupos e fóruns de discussão de jogos bem antes do surgimento da internet, no final dos anos 80, quando os BBS (Bulletin Board System) estavam no auge. Mesmo com todo potencial que a internet trouxe, não existe (ainda) uma cultura que de fato apoie a produção nacional. Mesmo entre o pessoal da área de desenvolvimento, ferramentas, livros, postagens e mesmo palestras de desenvolvedores locais não tem a repercussão necessária. Até mesmo quando os próprios criadores estão a um click de distância.
Talvez resida ai a falta de grandes títulos de relevância nacional, num primeiro momento, e internacional como consequência. A sabedoria popular diz que santo de casa de não faz milagres, mas se nem os locais conseguem “ver” esses pequenos milagres, o que sobrará para o resto do planeta ver?
Neste final de ano pense um pouco sobre isso tudo. Não tanto por seu game, mas pelos trocentos games brasileiros que passam invisíveis pelo tempo e que acabam no limbo quase que sem registro algum.
