“Neve é uma ficção interativa não linear na qual suas decisões podem mudar completamente os rumos da história. Gerencie sua equipe, corra contra o tempo e desvende os mistérios que cercam a queda da sua nave, neste thriller retrofuturista sufocante que vai te prender desde o primeiro segundo.”
Quando um jogo brasileiro consegue chamar a atenção pela narrativa antes mesmo da jogabilidade, sei que existe alguma coisa diferente acontecendo. Foi exatamente essa sensação que tive ao jogar Neve, desenvolvido por Michelle Santos da Ritus Studio.
Lançado em 17 de abril de 2026 por R$ 29,99, Neve é uma mistura de ficção interativa, aventura narrativa e thriller psicológico ambientado em um futuro retrofuturista que não esconde suas inspirações. Pelo contrário: elas aparecem logo nos primeiros minutos e, para quem cresceu assistindo Alien – O Oitavo Passageiro, é impossível não enxergar semelhanças. Os corredores estreitos, os destroços da nave, a tecnologia pesada, os painéis iluminados e principalmente aquela permanente sensação de que alguma coisa muito errada está prestes a acontecer remetem imediatamente ao clássico filme.
A história coloca o jogador no comando da capitã Jasmina, presa em uma cápsula criogênica enquanto tenta coordenar duas integrantes da tripulação, Hilas e Atalanta, na tentativa desesperada de reparar a nave Argo antes que o oxigênio se esgote. O relógio nunca para. Cada decisão consome tempo e influencia acontecimentos paralelos, criando uma narrativa em que diferentes eventos continuam acontecendo mesmo quando você está ocupado resolvendo outro problema. É uma mecânica extremamente interessante e que faz cada partida seguir um caminho próprio. Segundo as informações do jogo são seis finais possíveis, todos determinados pelas escolhas feitas durante cerca de três horas de jogo. Mas confesso que nem cheguei (ainda) ao primeiro deles.
Entre as personagens, quem mais me chamou atenção foi Hilas. Sua insegurança praticamente conduz boa parte da tensão dramática. Ela está sempre em dúvida, hesita diante das decisões e transmite uma fragilidade que acaba influenciando também o jogador – por que que raios essa moça veio parar nessa missão?. Me peguei pensando se podia confiar nela com alguma responsabilidade. É exatamente esse tipo de construção que faz uma boa ficção interativa funcionar.
Outro aspecto que merece elogios é a direção de arte. As ilustrações são muito bonitas, reforçam o clima claustrofóbico e ajudam a vender a sensação de isolamento em um lugar desconhecido. Não existe desperdício visual e tudo contribui para aumentar a tensão. E tensão é justamente a palavra que define Neve.
O jogo praticamente não dá descanso. Mesmo nos momentos mais calmos existe uma sensação constante de urgência. O oxigênio está acabando, a tripulação começa a entrar em conflito, a inteligência artificial da nave nem sempre parece confiável e os mistérios envolvendo o planeta onde pousaram só aumentam conforme a história avança. Não é um jogo de sustos fáceis. É um suspense construído lentamente, que prende muito mais pela expectativa do que pelo choque.
Os números também chamam atenção. Com aproximadamente 1,4 mil owners poucos meses após o lançamento e análises muito Positivas na Steam, Neve demonstra que encontrou seu público, mesmo ocupando um nicho bastante específico.
Nem todo jogador terá paciência para um ritmo mais contemplativo e baseado em diálogos (eu adoro). Mas quem aprecia ficção científica, suspense psicológico e histórias em que cada decisão realmente importa encontrará aqui um dos trabalhos narrativos mais interessantes produzidos recentemente no cenário independente brasileiro.
Gostei do clima, gostei da construção das personagens, gostei da tensão constante e gostei especialmente daquela sensação de estar caminhando por um cenário que pode (literalmente e/ou figurativamente) explodir a qualquer momento. Talvez seja a lembrança de Alien falando mais alto. Ou talvez seja apenas porque Neve consegue fazer exatamente aquilo que um bom thriller deve fazer: manter o jogador desconfortável do início ao fim.
