O desenvolvedor Alex Leal, responsável pelo estúdio independente de Brasília Lizards Games, lançou o jogo casual Chinelo Voador, no final de dezembro de 2025, em uma iniciativa que zomba sem reservas do assunto que tomou conta das redes no Brasil na virada do ano: entrar com os dois pés em 2026.
Para quem não estava no país naquele período aparentemente festivo do ano, a Alpargatas, fabricante dos chinelos Havaianas, lançou uma campanha com a renomada atriz Fernanda Torres em que a mensagem sugere ao público entrar em 2026 “não com o pé direito, mas com os dois pés”.
Foi o que bastou para os patrulheiros da pretensa ‘direita’ nacional (digo pretensa porque boa parte dessas pessoas sequer entendem o significado do conceito) tomassem as redes sociais e aplicativos de trocas de mensagens vociferando que a campanha era ‘esquerdista’, ‘anti-direita’ e que Fernandinha foi contratada por ser ‘de esquerda’, em uma atitude que afastava os consumidores do espectro destro da política nacional.
Ligeiro, Alex Leal criou um game inspirado na mecânica de Angry Birds no qual uma caricata Fernanda Torres atira chinelos em objetos com feições similares a criaturas bovinas, em uma clara alusão à pecha de ‘Gado’, associada pela ala canhota do país aos seus algozes.
O teor do game não deixa dúvidas em relação ao segmento pelo qual o designer tem preferência – e os conhecedores de suas produções certamente lembrarão de outros projeto recente, Capital Fire, que não poupa a turba que promoveu quebra-quebra no 8 de janeiro de 2023, em Brasília, cidade onde está sediado o estúdio.
“Tá estressado com as notícias? A gente te entende. Chegou a hora da sua terapia diária! Lançamos oficialmente o Chinelo Voador: o simulador de ‘protesto pacífico’ mais polêmico e viciante da internet”, anunciou o desenvolvedor em postagem do estúdio, oficializando a novidade.
Além dos bovinos alvos das chineladas da protagonista do filma Ainda Estou Aqui, de Walter Salles Júnior, o despretensioso game propõe ajustar a mira contra outras figuras icônicas da direita radical, como os personagens Capitão, Bananinha, Micheque, Wonka, Pastor e Zema, em clara alusão a personagens reais que habitam o noticiário sobre política nacional – e eventualmente policialescos -, para seguir acumulando pontos.
Para além da catarse dos progressistas, que se divertem com o jogo tanto pela performance da pontuação quanto com o sarro em cima de personalidades conhecidas pelo seu histrionismo na tribuna política, parece oportuno refletir sobre o pensamento médio da pessoas que compram este discurso fácil de “nós contra eles”, qualquer que seja a sua filosofia.
Imaginar que uma empresa com o porte de uma fabricante e exportadora de calçados teria legítimo interesse em panfletar contra o sistema capitalista e em favor de pautas da dita ‘esquerda’ soa como crer que coelhos botam ovos de chocolate, mas há quem acredite verdadeiramente nisso!
Apesar dos contínuos investimentos em educação formal, aparentemente o país trava uma luta contra a desinformação consentida por enorme parte da população, que chancela de livre e espontânea vontade informações vazias e, não raro, absurdas em nível crônico, que distorcem a nossa realidade e criam um inamistoso clima de briga de torcidas que faz inveja aos Hooligans, e não parece haver meios de retomar a sanidade nacional.
Resta acreditar que, por meio da exposição ao ridículo, parte dessa camada populacional tenha um choque de realidade e faça uso de sua racionalidade, para voltar a brigar por demandas que precisam ser de fato combatidas, como os privilégios, as falcatruas, a corrupção que vai dos bancos aos púlpitos das igrejas, o feminicídio gritante e outros problemas e mazelas que o país deveria extirpar para sempre.
“Aqui a única regra é ter boa mira e lavar a alma. Esqueça o textão na rede social, vem resolver na chinelada (virtual, claro!)”, satiriza a mensagem do estúdio na página do game. O Lizards já é conhecido do público fã dos jogos brasileiros, com outros projetos baseados na política nacional como Capital Fire, sobre o explosivo 8 de janeiro, acima citado, Vale Tudo, game que simula um ‘Street Fighter’ entre a então presidenta Dilma e o congressista Eduardo Cunha, lançado em 2016, e mais recentemente o jogo de tabuleiro Na Trilha do Risco, que trata dos impactos das mudanças climáticas no mundo, tema que padece do negacionismo crescente entre os extremistas da ala mais à direita da sociedade. Muitos, senão todos os trabalhos do artista e designer digital, podem ser acessados na página oficial de seu portfólio.
Chinelo Voador é um game fácil de jogar e continua disponível gratuitamente, rodando direto em navegadores de internet, contando com uma versão paga que permite liberar todos os personagens, oferecendo munição infinita para maior diversão, ao preço camarada de R$ 4,90. Para conhecer mais sobre o estúdio, basta acessar a conta oficial no Instagram.
Imagem: fotomontagem
