O estúdio brasileiro Mito Games lançou, no inídio de fevereiro, seu game independente Tupi, a Lenda de Arariboia, que trata de temas relacionados à cultura indígena e a elementos do folclore nacional, em um projeto que vem ganhando a atenção da mídia especializada.

O game insere na narrativa ficcional do projeto a figura lendária do indígena que habitou as terras do Rio de Janeiro e Espírito Santo, protagonizando inúmeras aventuras em um Brasil colonial no qual mitos e criaturas fantásticas preenchem a trama.

O roteiro do jogo coloca o indígena Arariboia como um personagem expulso das terras fluminenses seguindo para a região capixaba, onde se alia aos portugueses e reconstrói a sua tribo para, posteriormente, voltar ao Rio de Janeiro com apoio da armada lusitana e colocar fim à invasão das forças franceses que dominavam a região.

“O nosso jogo é um roguelite monster tamer em sistema de RPG por turnos e a ideia é que você capture os inimigos e os coloque em seu time, para combater os novos os novos oponentes que surgirem”, explicou o designer Rafael Calmon, que também atua como programador no estúdio.

O desenvolvedor conversou com o Indie Brasilis durante a BGS 2025 e contou que o projeto ganhou relevância como um trabalho efetivo para os desenvolvedores a partir da ideia de produzir algo capaz de valorizar a cultura indígena, tema caro para os integrantes do estúdio.

Após a inscrição da proposta, algum tempo depois, em um edital de cultura, a intenção ganhou objetividade e entrou de uma vez em produção. “A gente também queria fazer alguma coisa que envolvesse também as várias lendas que existem na cultura brasileira”, declarou, rememorando a experiência do game Shin Megami Tensei, projeto de RPG de 1992 da Namco e Sega, que faz “exatamente isso” com as culturas de outros povos, como explicou a este repórter. “A gente se inspirou na ideia para fazer o mesmo com a nossa cultura nacional”, enfatizou na troca de ideias durante a feira de jogos.

Para a pesquisa, o grupo afirmou ter realizado uma profunda busca na rede digital, encontrando “vários sites que se aprofundam na cultura brasileira”, o que auxiliou no embasamento dos temas do jogo. “Mas isso, apenas, não era suficiente, embora a gente tenha conseguido uma boa base nesse garimpo inicial”, comentou, ressaltando que a investigação ganhou, posteriormente, uma imersão adicional.

“Depois, a gente procurou sobre estes temas em livros especializados, contendo a história do Brasil em diferentes períodos da nação e da chegada dos povos, como a vinda dos portugueses para o país, e até um dicionário em Tupi, para podermos inserir termos do idioma original dos povos tradicionais pré-coloniais”, destacou o jovem.

“Então, o público vai encontrar seres como o Saci, a Mula Sem Cabeça, a Caipora e o Boitatá, e estamos nos baseando também em outros jogos como o Shin Megami Tensei, Persona e Darkest Dungeon, pelo combate posicional e Hades, pela narrativa reativa”, identificou. “Todas as criaturas são baseadas tanto no folclore quanto na flora, na fauna brasileiras”.

“A partir daí”, continuou, “nos pensamos como todos esses elementos se encaixariam em um estilo de jogo e surgiu o conceito do monster tamer exatamente porque eles colocam as criaturas à frente do gameplay e isso traria bem à tona a cultura das lendas e as características dos animais e da flora nacionais”, acrescentou.

Rafael informou que o estúdio buscou desenvolver algo que pudesse fazer justiça à cultura brasileira e, simultaneamente, chamar a atenção do público em outros países. “A ideia era ser bem aceitos ao redor do mundo, porque a gente não queria que as vendas ficassem restritas ao Brasil, tentando levar a nossa cultura para fora, também”, disse, salientando os valores da produção nacional.

Tendo como pano de fundo o contexto histórico, uma parte significativa do projeto começou a criar solidez à jornada de Arariboia, permitindo que o herói encontre personagens reais da história do período colonial do Brasil, a exemplo do Padre José de Anchieta e Estácio de Sá, militar português, fundador da cidade do Rio de Janeiro, entre outros.

“O nosso protagonista é o Arariboia, um personagem que existiu realmente, que teve sua tribo expulsa de suas terras por uma tribo rival, o que os levou a se refugiarem no Espírito Santo”, rememorou, explicando mais detalhadamente o contexto da narrativa do game.

“Durante esse período histórico, estes rivais se aliaram aos franceses que estavam no Rio de Janeiro. Os portugueses, por sua vez, precisavam de aliados e vieram até o Arariboia, e juntos conseguiram tirar os franceses daquele território. Em razão dessa vitória, os portugueses deram terras para o Arariboia, onde foi construída pelos indígenas uma vila, que viria a ser, futuramente, a cidade de Niterói, no Rio de Janeiro”, resgatou historicamente o designer.

O estúdio começou a produzir Tupi, a Lenda de Arariboia em março de 2024 e o primeiro mapa do game já estava finalizado e disponível para conhecer e jogar no estande da desenvolvedora na BGS e, posteriormente, uma versão demo do jogo foi disponibilizada gratuitamente na página oficial do projeto na plataforma Steam, onde ainda é possível baixar o arquivo para testar a produção.

Tupi: A Lenda de Arariboia é uma celebração dos mitos e tradições indígenas brasileiros, que reforça a importância da representatividade cultural de nosso legado tupinambá no desenvolvimento de jogos digitais como meio para transferência de conhecimento e para sensibilizar os jovens sobre a História do Brasil. O game foi vencedor do Abragames Pitch Arena na gamescom latam 2025.

Desenvolvido pela Mito Games e com o apoio da Lei de Incentivo à Cultura Capixaba (LICC), o jogo tem previsão de lançamento para o início de 2026 e pode ser adicionado à wishlist no Steam.

Imagem: fotomontagem

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