{"id":617,"date":"2025-12-31T07:28:00","date_gmt":"2025-12-31T10:28:00","guid":{"rendered":"https:\/\/indiebrasilis.com.br\/?p=617"},"modified":"2025-12-29T14:02:47","modified_gmt":"2025-12-29T17:02:47","slug":"resumindo-2025","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/indiebrasilis.com.br\/?p=617","title":{"rendered":"Resumindo 2025\u2026"},"content":{"rendered":"\n<p>Se h\u00e1 algo que o cen\u00e1rio de games no Brasil provou recentemente \u00e9 que ele segue vivo, inquieto e mais diverso do que aparenta \u00e0 primeira vista, mesmo operando sob limita\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas de financiamento, visibilidade e pol\u00edticas p\u00fablicas err\u00e1ticas. O que mais importou n\u00e3o foi um grande hit isolado, mas o conjunto de movimentos que mostram amadurecimento criativo, profissionaliza\u00e7\u00e3o gradual e resist\u00eancia cultural.<\/p>\n\n\n\n<p>O maior destaque continua sendo a produ\u00e7\u00e3o independente, que responde hoje pela esmagadora maioria dos lan\u00e7amentos nacionais. Pequenos est\u00fadios e desenvolvedores solo seguiram apostando em jogos autorais, muitas vezes com forte identidade cultural, experimentalismo mec\u00e2nico ou discurso pol\u00edtico expl\u00edcito, algo que sempre diferenciou o Brasil no cen\u00e1rio indie internacional. T\u00edtulos narrativos, jogos de terror psicol\u00f3gico, adventures e experi\u00eancias h\u00edbridas (entre game, arte e manifesto) continuam sendo o territ\u00f3rio onde o Brasil mais se expressa.<\/p>\n\n\n\n<p>Eventos nacionais tiveram papel central nesse processo. <strong>SBGames<\/strong>, <strong>BIG Festival<\/strong> (agora integrado \u00e0 <strong>Gamescom Latam<\/strong>) e <strong>Retrocon <\/strong>funcionaram como vitrines reais para jogos brasileiros, n\u00e3o apenas como espa\u00e7os de networking, mas como ambientes de valida\u00e7\u00e3o cultural. O BIG, em especial, segue sendo a principal porta de entrada internacional para produ\u00e7\u00f5es nacionais, apesar das cr\u00edticas recorrentes sobre curadoria, competi\u00e7\u00e3o desigual e o risco de pasteuriza\u00e7\u00e3o est\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p>A <strong>Gamescom Latam \/ BGS<\/strong>, por sua vez, mostrou avan\u00e7os t\u00edmidos no espa\u00e7o dado ao desenvolvedor brasileiro, mas ainda muito aqu\u00e9m do ideal. O contraste entre estandes milion\u00e1rios de grandes publishers e a precariedade estrutural de muitos indies nacionais segue sendo um retrato honesto da ind\u00fastria local: talento abundante, recursos escassos.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro ponto relevante foi a continuidade da cena retr\u00f4 e da preserva\u00e7\u00e3o digital. Iniciativas independentes, coletivos, livros, eventos e relan\u00e7amentos n\u00e3o oficiais refor\u00e7aram a import\u00e2ncia hist\u00f3rica dos games brasileiros dos anos <strong>80 <\/strong>e <strong>90<\/strong>. Mais do que nostalgia, trata-se de reconhecimento: entender que existe uma linhagem criativa local anterior \u00e0s engines modernas e aos editais.<\/p>\n\n\n\n<p>No campo econ\u00f4mico, o ano foi marcado por expectativa frustrada em rela\u00e7\u00e3o a pol\u00edticas p\u00fablicas. Incentivos espec\u00edficos para games continuam dilu\u00eddos entre audiovisual, inova\u00e7\u00e3o e cultura, sem uma estrat\u00e9gia clara. O discurso de &#8220;economia criativa&#8221; segue forte, mas raramente acompanhado de a\u00e7\u00f5es estruturais consistentes para quem desenvolve jogos no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m merece destaque o avan\u00e7o, ainda que controverso, de temas como diversidade, representatividade e cr\u00edtica social nos jogos brasileiros. Enquanto parte do p\u00fablico reage com hostilidade, muitos desenvolvedores seguem tratando games como linguagem cultural leg\u00edtima, n\u00e3o apenas produto de consumo. Isso gera ru\u00eddo, cancelamentos e polariza\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m identidade e relev\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, talvez o aspecto mais importante: o Brasil segue produzindo jogos apesar do sistema e n\u00e3o por causa dele. O que se destacou n\u00e3o foi a exce\u00e7\u00e3o bem sucedida, mas a persist\u00eancia cotidiana de quem lan\u00e7a jogos sabendo que dificilmente recuperar\u00e1 o investimento inicial. Em um mercado saturado, globalizado e brutalmente competitivo, continuar criando j\u00e1 \u00e9, em si, um ato her\u00f3ico.<\/p>\n\n\n\n<p>O cen\u00e1rio brasileiro de games n\u00e3o vive um momento dourado. Vive um momento real. E isso, para quem o acompanha h\u00e1 d\u00e9cadas, \u00e9 um avan\u00e7o que n\u00e3o deve ser subestimado. Ainda assim temos um problema cr\u00f4nico que tem sido insuper\u00e1vel: a falta de uma divulga\u00e7\u00e3o org\u00e2nica efetiva, das cria\u00e7\u00f5es nacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Participo de grupos e f\u00f3runs de discuss\u00e3o de jogos bem antes do surgimento da internet, no final dos anos <strong>80<\/strong>, quando os <strong>BBS <\/strong>(<em>Bulletin Board System<\/em>) estavam no auge. Mesmo com todo potencial que a internet trouxe, n\u00e3o existe (ainda) uma cultura que de fato apoie a produ\u00e7\u00e3o nacional. Mesmo entre o pessoal da \u00e1rea de desenvolvimento, ferramentas, livros, postagens e mesmo palestras de desenvolvedores locais n\u00e3o tem a repercuss\u00e3o necess\u00e1ria. At\u00e9 mesmo quando os pr\u00f3prios criadores est\u00e3o a um click de dist\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez resida ai a falta de grandes t\u00edtulos de relev\u00e2ncia nacional, num primeiro momento, e internacional como consequ\u00eancia. A sabedoria popular diz que santo de casa de n\u00e3o faz milagres, mas se nem os locais conseguem &#8220;ver&#8221; esses pequenos milagres, o que sobrar\u00e1 para o resto do planeta ver?<\/p>\n\n\n\n<p>Neste final de ano pense um pouco sobre isso tudo. N\u00e3o tanto por seu game, mas pelos trocentos games brasileiros que passam invis\u00edveis pelo tempo e que acabam no limbo quase que sem registro algum.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se h\u00e1 algo que o cen\u00e1rio de games no Brasil provou recentemente \u00e9 que ele segue vivo, inquieto e mais [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":618,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[64,62,66],"class_list":["post-617","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria","tag-opiniao","tag-por-um-punhado-de-bits","tag-pra-pensar"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/indiebrasilis.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/617","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/indiebrasilis.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/indiebrasilis.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/indiebrasilis.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/indiebrasilis.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=617"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/indiebrasilis.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/617\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":619,"href":"https:\/\/indiebrasilis.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/617\/revisions\/619"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/indiebrasilis.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/618"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/indiebrasilis.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=617"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/indiebrasilis.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=617"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/indiebrasilis.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=617"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}