{"id":588,"date":"2025-11-19T07:30:00","date_gmt":"2025-11-19T10:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/indiebrasilis.com.br\/?p=588"},"modified":"2025-11-17T09:03:29","modified_gmt":"2025-11-17T12:03:29","slug":"jogosbr-20-anos-depois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/indiebrasilis.com.br\/?p=588","title":{"rendered":"JogosBR: 20 anos depois\u2026"},"content":{"rendered":"\n<p>No come\u00e7o dos anos <strong>2000<\/strong>, quando produzir jogos comercialmente no Brasil ainda era um ato de hero\u00edsmo, o Minist\u00e9rio da Cultura decidiu que talvez valesse a pena olhar para aquele estranho territ\u00f3rio chamado &#8220;jogos digitais&#8221;. N\u00e3o existia <strong>Steam<\/strong>, n\u00e3o existia cen\u00e1rio indie, n\u00e3o existia <strong>Unity<\/strong>. Existiam apenas alguns pequenos est\u00fadios sobrevivendo na base da teimosia, alguns cursos universit\u00e1rios experimentais e muito improviso. Nesse ambiente apareceu o <strong>JogosBR<\/strong>, um concurso nacional criado para fomentar a produ\u00e7\u00e3o brasileira de jogos e dar visibilidade para quem desenvolvia sem nenhum tipo de apoio. Na pr\u00e1tica o <strong>JogosBR <\/strong>foi um concurso que tentou inaugurar ou inventar a ind\u00fastria brasileira de games. Uma baita pretens\u00e3o para pouca experi\u00eancia de mercado.<\/p>\n\n\n\n<p>Vale ressaltar que o concurso foi uma iniciativa ousada para a \u00e9poca. O governo parecia ter percebido, antes de boa parte do mercado, que jogos n\u00e3o eram brinquedos, mas express\u00e3o cultural, t\u00e9cnica e econ\u00f4mica. E, de fato, o <strong>JogosBR <\/strong>serviu como uma esp\u00e9cie de laborat\u00f3rio social: colocou estudantes, empresas e aventureiros digitais no mesmo ambiente, estimulou forma\u00e7\u00e3o de equipes, incentivou documenta\u00e7\u00e3o de projetos e, principalmente, deu visibilidade a pouco mais de uma dezena de criadores que jamais teriam espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>O concurso deveria funcionar como uma vitrine nacional. Havia categorias para jogos completos, prot\u00f3tipos, conceitos, pesquisa acad\u00eamica e at\u00e9 roteiros. N\u00e3o havia limita\u00e7\u00e3o r\u00edgida de engine ou plataforma, at\u00e9 porque quase ningu\u00e9m tinha ferramentas profissionais. A ideia era simples: produzir, apresentar e competir.<\/p>\n\n\n\n<p>Os crit\u00e9rios previam incluir: inova\u00e7\u00e3o no conceito ou na mec\u00e2nica, qualidade t\u00e9cnica dentro das limita\u00e7\u00f5es da realidade brasileira, documenta\u00e7\u00e3o do projeto (um diferencial na \u00e9poca!), ader\u00eancia cultural (tem\u00e1ticas brasileiras eram sempre bem-vindas), potencial educativo ou social em algumas categorias.<\/p>\n\n\n\n<p>Para muitos desenvolvedores, participar do <strong>JogosBR <\/strong>foi o primeiro contato com feedback formal, jurados, avalia\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica. No papel tudo isso soou como um sonho a ser realizado, <strong>20 <\/strong>anos depois da produ\u00e7\u00e3o (artesanal) dos primeiros games brasileiros, no in\u00edcio dos anos <strong>80<\/strong>. Mas o que se viu na sequ\u00eancia beirou o desastre e impactou de forma significativa o que viria a seguir.<\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e9 aqui que reside a parte mais interessante: o <strong>JogosBR <\/strong>n\u00e3o criou uma ind\u00fastria, pouco ajudou na forma\u00e7\u00e3o de uma cultura de produ\u00e7\u00e3o e trouxe mais caos ao j\u00e1 enfraquecido mercado produtor, inaugurando uma era de valoriza\u00e7\u00e3o do dinheiro p\u00fablico a fundo perdido, como \u00fanica &#8220;salva\u00e7\u00e3o&#8221; para a ind\u00fastria. A ideia do edital salvador da p\u00e1tria, ainda hoje vista como &#8220;obriga\u00e7\u00e3o&#8221; do estado, nasceu desse concurso.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar desses contratempos, n\u00e3o se pode dizer que o <strong>JogosBR <\/strong>teve resultado zero. Vejamos alguns destaques: est\u00fadios e profissionais surgiram a partir das equipes que participaram do concurso, times universit\u00e1rios se tornaram empresas independentes, estudantes descobriram voca\u00e7\u00f5es, programadores e designers encontraram parceiros para projetos futuros.<\/p>\n\n\n\n<p>O <strong>JogosBR <\/strong>ajudou a legitimar os jogos como express\u00e3o cultural, numa \u00e9poca em que o governo praticamente ignorava o setor. Tentou criar um acervo p\u00fablico de projetos, documentos e prot\u00f3tipos para influenciar universidades e cursos emergentes, ainda que pouqu\u00edssima informa\u00e7\u00e3o, sobre esses jogos, tenha &#8220;sobrevivido&#8221; nos dias atuais. Nem se tem mais not\u00edcia desse acervo.<\/p>\n\n\n\n<p>De certa forma o concurso ajudou indiretamente a modelar uma mentalidade de produ\u00e7\u00e3o. O simples fato de ter que escrever GDD, apresentar pitch e produzir algo funcional j\u00e1 foi um salto para uma gera\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tinha refer\u00eancias locais de mecanismos de produ\u00e7\u00e3o eficientes. At\u00e9 porque o mundo dos anos <strong>2000<\/strong>, p\u00f3s estouro da bolha ponto.com, n\u00e3o era mais o mesmo das d\u00e9cadas <strong>80\/90<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>A pergunta embutida nesta coluna, o que sobrou dele vinte anos depois, s\u00f3 pode ser respondida com um lac\u00f4nico n\u00e3o sobrou nada. O <strong>JogosBR <\/strong>n\u00e3o evoluiu para um programa permanente, n\u00e3o virou incubadora, n\u00e3o se transformou em festival nacional. Foi um projeto de \u00e9poca, limitado, com or\u00e7amento modesto e uma aparente motiva\u00e7\u00e3o pol\u00edtico popularesca.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas sua influ\u00eancia pode ser sentida de maneiras inesperadas: v\u00e1rios profissionais que hoje lideram est\u00fadios brasileiros passaram por ele direta ou indiretamente, o reconhecimento institucional dos games como cultura, hoje comum em editais e pol\u00edticas p\u00fablicas, teve uma das suas primeiras apari\u00e7\u00f5es justamente ali.<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia de concurso nacional inspirou iniciativas posteriores, tanto governamentais quanto privadas. A no\u00e7\u00e3o de que &#8220;game design n\u00e3o \u00e9 apenas documenta\u00e7\u00e3o, processo e entrega&#8221; foi absorvida parcialmente por universidades, algumas delas usando materiais do pr\u00f3prio <strong>JogosBR <\/strong>como refer\u00eancia nos anos seguintes. Mas nada al\u00e9m disso.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio da era de ouro dos festivais de m\u00fasica popular, que consolidou e prestigia at\u00e9 hoje artistas, carreiras e cl\u00e1ssicos do cancioneiro musical brasileiro, o <strong>JogosBR <\/strong>n\u00e3o logrou ter deixado nem um \u00fanico exemplar de jogo a ser mencionado, sem uma ampla pesquisa no Google.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez o legado mais importante seja indireto e intang\u00edvel: o <strong>JogosBR <\/strong>convenceu uma gera\u00e7\u00e3o de que era poss\u00edvel fazer jogos no Brasil, mesmo com todas as limita\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e econ\u00f4micas. Ele mostrou que existia demanda, existia talento e existia vontade. S\u00f3 faltava (ou faltou) estrutura.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, com uma ind\u00fastria muito mais madura, eventos fortes (<strong>BIG<\/strong>, <strong>SBGames<\/strong>, <strong>Gamescom Latam<\/strong> e <strong>BGS<\/strong>), ferramentas acess\u00edveis e modelos de neg\u00f3cio definidos, isso tudo pare\u00e7a \u00f3bvio. Mas em <strong>2004 <\/strong>n\u00e3o era.<\/p>\n\n\n\n<p>Se o <strong>JogosBR <\/strong>tivesse continuado, talvez tiv\u00e9ssemos no Brasil um ecossistema mais s\u00f3lido de incuba\u00e7\u00e3o, treinamento e visibilidade. O concurso poderia ter se tornado um hub nacional de talentos, uma vitrine equivalente ao <em>Independent Games Festival<\/em> (criado em <strong>1998<\/strong>), ou at\u00e9 uma ponte permanente entre criadores e pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez esteja na hora de revisitar essa ideia de movimento pr\u00f3 ind\u00fastria, agora com ferramentas modernas, engines gratuitas, mercado internacional e uma gera\u00e7\u00e3o de veteranos que nasceu justamente naquela \u00e9poca. Curiosamente, para o bem ou para o mal, o governo que tentou alavancar o <strong>JogosBR <\/strong>e fracassou ainda \u00e9 o mesmo que governa o pais hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>O <strong>JogosBR <\/strong>teve duas realiza\u00e7\u00f5es: uma em <strong>2004 <\/strong>(quase que experimental e absurdamente amadora) e outra em <strong>2006<\/strong>, com a participa\u00e7\u00e3o da rec\u00e9m criada <strong>Abragames<\/strong>, chamada a auxiliar dada a quantidade insana de cr\u00edticas ao primeiro evento. Fui cr\u00edtico ferrenho da primeira edi\u00e7\u00e3o por conta do amadorismo e, como conselheiro da <strong>Abragames<\/strong>, participei da reuni\u00e3o que tra\u00e7ou a espinha dorsal da premia\u00e7\u00e3o e dos crit\u00e9rios de participa\u00e7\u00e3o da segunda.<\/p>\n\n\n\n<p>Parodiando a fala de <strong>Elrond<\/strong>, no filme <em>O Senhor dos An\u00e9is<\/em>: &#8220;Eu estava l\u00e1 <strong>Gandalf<\/strong>, h\u00e1 <strong>20 <\/strong>anos atr\u00e1s\u2026 Lutei bravamente por um evento significativo para o mercado produtor. Mas a for\u00e7a dos homens falhou e acabou corrompendo muitos.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No come\u00e7o dos anos 2000, quando produzir jogos comercialmente no Brasil ainda era um ato de hero\u00edsmo, o Minist\u00e9rio da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":589,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[64,62,66],"class_list":["post-588","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria","tag-opiniao","tag-por-um-punhado-de-bits","tag-pra-pensar"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/indiebrasilis.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/588","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/indiebrasilis.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/indiebrasilis.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/indiebrasilis.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/indiebrasilis.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=588"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/indiebrasilis.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/588\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":590,"href":"https:\/\/indiebrasilis.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/588\/revisions\/590"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/indiebrasilis.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/589"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/indiebrasilis.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=588"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/indiebrasilis.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=588"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/indiebrasilis.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=588"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}