{"id":2080,"date":"2026-04-22T07:30:00","date_gmt":"2026-04-22T10:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/indiebrasilis.com.br\/?p=2080"},"modified":"2026-04-20T08:34:33","modified_gmt":"2026-04-20T11:34:33","slug":"meu-aprendizado-basico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/indiebrasilis.com.br\/?p=2080","title":{"rendered":"Meu aprendizado b\u00e1sico"},"content":{"rendered":"\n<p>Foi assim que aconteceu. N\u00e3o estou inventando nada. Se parecer coisa de doido, \u00e9 porque \u00e9 mesmo. Ent\u00e3o vamos l\u00e1\u2026 Mas antes um aviso: esse texto cont\u00e9m palavras e express\u00f5es que podem soar esquisitas para pessoas mais jovens. Fique tranquilo, nenhuma \u00e9 ofensiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o <strong>NE Z80<\/strong> chegou, em <strong>1981<\/strong>, em minha casa trazido pelos Correios, comprado por reembolso postal via revista <strong>Nova Eletr\u00f4nica<\/strong>, eu n\u00e3o sabia exatamente o que ia acontecer, mas estava muito, muito curioso sobre aquela m\u00e1quina estranha. Computador, para mim naquela \u00e9poca, era o mainframe do <strong>DataCenter <\/strong>da <strong>PUC\/RJ<\/strong> que sempre causava problemas pra todo mundo, pelo menos duas vezes por ano, na montagem das mat\u00e9rias eletivas do semestre. Era algo que todo mundo execrava (e culpava, evidentemente).<\/p>\n\n\n\n<p>Antes preciso dizer que sempre, desde criancinha, eu usei m\u00e1quina de escrever. Nunca fiz curso de datilografia e catar milho era a minha especialidade, mas no meu apartamento em Copacabana eu tinha tr\u00eas delas, incluindo uma moderna <strong>IBM 82c<\/strong> el\u00e9trica de esfera. Meu xodozinho.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, o que aconteceu na minha primeira utiliza\u00e7\u00e3o do <strong>NE Z80<\/strong> foi surreal. Para digitar uma certa fun\u00e7\u00e3o era preciso apertar <strong>Shift <\/strong>e mais uma determinada tecla. Assim o fiz e nada. V\u00e1rias tentativas e nada. Nada vezes nada. J\u00e1 estava procurando a embalagem do micro porque esse, com certeza, tinha vindo com defeito. Mas ai a ficha caiu: n\u00e3o \u00e9 <strong>Shift <\/strong>e depois a tecla, \u00e9 junto. Igual aquela tecla que ativa as letras mai\u00fasculas nas m\u00e1quinas de escrever.<\/p>\n\n\n\n<p>Santa paci\u00eancia, Batman. O micro n\u00e3o estava com defeito. O defeito estava na frente dele. E, ao contr\u00e1rio de alguns usu\u00e1rios que conheci tempos depois, eu entendi de cara que &#8220;gravar em fita cassete&#8221; significava ligar o gravador em modo grava\u00e7\u00e3o e &#8220;transmitir&#8221; o programa da mem\u00f3ria do micro para a fita e n\u00e3o ligar o gravador e ficar digitando a listagem do programa, como se isso gravasse alguma coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Superado esses pequenos desconfortos de operar um equipamento que jamais tinha visto, igual ou semelhante, na minha vida, comecei os experimentos indicados pelo manual e raios, teria que aprender uma linguagem de programa\u00e7\u00e3o chamada <strong>Basic<\/strong>. Anos mais tarde descobri, meio sem gra\u00e7a, que <strong>Basic <\/strong>queria dizer <em>Beginner&#8217;s All-purpose Symbolic Instruction Code<\/em>, ou seja, linguagem de programa\u00e7\u00e3o para man\u00e9s como eu.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o v\u00e1 l\u00e1: <strong>LET A=1<\/strong>. Mais \u00f3bvio \u00e9 imposs\u00edvel &#8211; fa\u00e7a a vari\u00e1vel <strong>A<\/strong> ser igual ao valor <strong>1<\/strong>. Isso eu entendi de primeira e de segunda <strong>IF A = 1 THEN LET B = 3<\/strong>. Precisa explicar? Se <strong>A<\/strong> for igual a <strong>1<\/strong> ent\u00e3o fa\u00e7a <strong>B<\/strong> valer <strong>3<\/strong>. Virei programador da noite para o dia e tudo que precisava era &#8220;conversar num ingl\u00eas ultra simples&#8221; com o computador.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dias, ou melhor as madrugadas, passavam mais r\u00e1pido que o normal e em pouco tempo eu j\u00e1 ousava achar que seria capaz de fazer o jogo do adivinhe o n\u00famero. O computador diz: diga o n\u00famero entre <strong>0<\/strong> e <strong>10<\/strong> que estou pensando. Voc\u00ea escolhe um valor e ele diz se acertou ou errou.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois que parar de rir, pense por um instante: era o in\u00edcio de toda uma era de programa\u00e7\u00e3o pessoal, dom\u00e9stica como se dizia, e naquele momento eu tinha entendido como raios o tal do computador funcionava. Coisa boba, se vista com os olhos de hoje, mas um passo gigantesco para a humanidade (algu\u00e9m j\u00e1 disse isso).<\/p>\n\n\n\n<p>Programar em <strong>Basic <\/strong>\u00e9 como co\u00e7ar: voc\u00ea come\u00e7a mas n\u00e3o sabe quando e se algum dia vai parar. Cada instru\u00e7\u00e3o nova que aprende \u00e9 uma felicidade gigantesca. Faz com que os desafios se tornem mais sofisticados. Mais elaborados. Adquirir conhecimento \u00e9 algo viciante.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"880\" height=\"348\" src=\"http:\/\/indiebrasilis.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/pupdb107b.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-2084\" srcset=\"https:\/\/indiebrasilis.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/pupdb107b.png 880w, https:\/\/indiebrasilis.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/pupdb107b-300x119.png 300w, https:\/\/indiebrasilis.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/pupdb107b-768x304.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 880px) 100vw, 880px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Dois micro computadores que fizeram minha cabe\u00e7a na primeira metade dos anos 1980<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Tempos depois conheci um <strong>Basic <\/strong>que n\u00e3o usava <strong>PRINT AT X,Y<\/strong> mas <strong>PRINT @X<\/strong> e um outro que usava <strong>DISPLAY<\/strong>. Mais adiante conheci um que n\u00e3o usava (a famigerada) numera\u00e7\u00e3o de linhas e outro que permitia mais de uma instru\u00e7\u00e3o por linha. O mundo n\u00e3o parava (e ainda n\u00e3o para) de evoluir e conhecer a linguagem <strong>Basic<\/strong> parecia ser o limite m\u00e1ximo que um micreiro poderia atingir.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 o dia que li, n\u00e3o lembro onde, que <strong>assembler <\/strong>era a linguagem que o programador falava diretamente com o processador, sem intermedi\u00e1rios. Humano falando direto com Deus. Se havia um programa que precisava ser r\u00e1pido (e a palavra que vem \u00e0 mente de todo mundo nesse ponto \u00e9 games), ele tinha que ser escrito em <strong>assembler<\/strong>, mas o m\u00e1ximo de informa\u00e7\u00e3o que eu tinha era: s\u00e3o zeros e uns, que viram um programa que o processador entende. Entende? Entende onde isso me obrigou a ir?<\/p>\n\n\n\n<p>Como dizem: a curiosidade \u00e9 a m\u00e3e de todas as descobertas, mas tamb\u00e9m dizem que a curiosidade matou o gato. Vai saber.<\/p>\n\n\n\n<p>O que eu sei \u00e9 que os jovens de hoje, que j\u00e1 nascem com um celular na m\u00e3o mais potente que os computadores da <strong>Apolo 11<\/strong> (aquela que levou o homem \u00e0 lua em <strong>1969<\/strong>) n\u00e3o tiveram essa chance de conhecer as &#8220;entranhas&#8221; compucabal\u00edsticas dos micro computadores pessoais. Isso n\u00e3o implica em nada ruim ou desabonador.<\/p>\n\n\n\n<p>Apenas n\u00e3o passaram por esse tipo de divers\u00e3o que, a exemplo das brincadeiras de rua, hoje s\u00e3o apenas lembran\u00e7as.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi assim que aconteceu. N\u00e3o estou inventando nada. Se parecer coisa de doido, \u00e9 porque \u00e9 mesmo. 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