{"id":3217,"date":"2026-07-15T10:20:34","date_gmt":"2026-07-15T13:20:34","guid":{"rendered":"https:\/\/indiebrasilis.com.br\/?p=3217"},"modified":"2026-07-15T13:29:06","modified_gmt":"2026-07-15T16:29:06","slug":"games-carregam-valores-sociais-nao-apenas-diversao-ou-o-que-os-designers-devem-focar-na-criacao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/indiebrasilis.com.br\/?p=3217","title":{"rendered":"Games carregam valores sociais, n\u00e3o apenas divers\u00e3o [ou, os elementos da educa\u00e7\u00e3o informal na cria\u00e7\u00e3o]"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u201cA educa\u00e7\u00e3o, finalmente, parece que vai aprender que o melhor caminho \u00e9 aquele que sempre esteve mais pr\u00f3ximo: a sem\u00e2ntica das brincadeiras de rua\u201d<\/em> &#8211; <em>S\u00e9rgio Bairon [Multim\u00eddia, 1995]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na condi\u00e7\u00e3o de pesquisador informal da cultura dos jogos digitais, tenho tido a feliz oportunidade de ministrar, com certa frequ\u00eancia, palestras para jovens em forma\u00e7\u00e3o nessas disciplinas e em ramos correlatos, sempre trazendo a diversidade de pensamento de in\u00fameros autores que se debru\u00e7am, com grande talento e empenho ao saber para a coletividade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O texto abaixo foi produzido para o site Game Cultura, em 2011, mas jamais postado, por motivos que o tempo apagou. As informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o parte de uma palestra ministrada na Fatec de Carapicu\u00edba, em 2011. Os detalhes foram recontextualizados para que fa\u00e7am sentido com a fluidez de uma narrativa textual, diferente da din\u00e2mica de uma apresenta\u00e7\u00e3o ao vivo, que permite interpolar assuntos e resgat\u00e1-los para uma s\u00edntese mais interativa com o p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o pontos, no entanto, que podem se mostrar bastante esclarecedores para interessados no tema e trazer bons insights aos desenvolvedores de jogos nacionais, avaliando aspectos diversos de valor social mais do que apenas o entretenimento proporcionado pelo gameplay, imagino. Boa leitura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Jogar nos ensina regras de conv\u00edvio social, limites, estrat\u00e9gia, competitividade e desapego, em nome da sociabilidade. Aprendemos (e apreendemos) novos valores de sociabilidade, novos costumes, formas de intera\u00e7\u00e3o, aperfei\u00e7oamos nosso repert\u00f3rio cognitivo e\u2026 nos divertimos entre amigos e familiares enquanto jogamos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Longe de serem apenas recursos de entretenimento, os jogos e os games apresentam aplica\u00e7\u00f5es sociais, educativas, culturais e comunit\u00e1rias. H\u00e1 v\u00e1rios exemplos, como os grupos acad\u00eamicos de pesquisa, projetos comunit\u00e1rios e a\u00e7\u00f5es paradid\u00e1ticas de cunho educativo que podem ser disparadores da aquisi\u00e7\u00e3o de novos saberes, a partir de uma viv\u00eancia l\u00fadica e imersiva, tal qual o \u2018c\u00edrculo m\u00e1gico\u2019 concebido por Johan Huizinga.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os games s\u00e3o os grandes respons\u00e1veis pela introdu\u00e7\u00e3o da cultura da inform\u00e1tica no cotidiano de jovens e fam\u00edlias, como identifica Alan Richard da Luz, em sua obra V\u00eddeo games: hist\u00f3ria, linguagem e express\u00e3o gr\u00e1fica, de 2011: \u201cO v\u00eddeo game \u00e9 uma nova m\u00eddia que ajudou a revolucionar a maneira como lid\u00e1vamos com o computador, desenvolveu nossa cogni\u00e7\u00e3o [\u2026] nossa percep\u00e7\u00e3o f\u00edsico-espacial e ampliou a rela\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos com os meios digitais\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na mesma linha de pensamento, Steven Johnson esclarece de que forma se processam as cogni\u00e7\u00f5es na mente dos jovens jogadores durante a intera\u00e7\u00e3o com o l\u00fadico digital, em seu livro De onde v\u00eam as boas ideias, tamb\u00e9m de 2011: \u201cImagine um garoto de dez anos de idade que de bom grado imerge no mundo de Zelda. Para ele, a luta pelo poder sobre o sistema n\u00e3o parece uma luta. Ele decodifica o cen\u00e1rio na tela \u2013 adivinhando as rela\u00e7\u00f5es causais entre a\u00e7\u00f5es e resultados, construindo hip\u00f3teses de trabalho sobre as regras internas do sistema \u2013 desde antes de aprender a ler\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse processo de intera\u00e7\u00e3o, de identifica\u00e7\u00e3o com o sistema computacional (que parece t\u00e3o dif\u00edcil para a Gera\u00e7\u00e3o Silenciosa, que antecedeu aos Baby Boomers) opera em n\u00edveis epistemol\u00f3gicos e desova na ontologia do ser, moldando nossa percep\u00e7\u00e3o individual e senso de coletividade, de forma leve e instrutiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201c\u2018Pensar como o computador\u2019 significa pensar em conjunto com a m\u00e1quina, tornando-se uma extens\u00e3o do processo computacional. O prazer dos jogos de computador est\u00e1 em entrar em um estado mental semelhante ao do computador, respondendo automaticamente [como ele]\u2026 O resultado \u00e9 um estado semi-meditativo, no qual voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 apenas interagindo como a m\u00e1quina, mas mesclando-se a ela\u201d, definiu Ted Friedman no texto Civilization and Its Discontents: Simulation, Subjectivity, and Space, presente na obra On a Silver Platter \u2013 CD-ROMs and the Promises of a New Technology, editada por Greg M. Smith, em 1998.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por meio dos games, passamos a compreender a l\u00f3gica interna da programa\u00e7\u00e3o dos sistemas computacionais, as rela\u00e7\u00f5es de intera\u00e7\u00e3o com o virtual e a virtualidade das simula\u00e7\u00f5es dos ambientes modelados digitalmente. Durante os per\u00edodos de conviv\u00eancia no virtual, temos a oportunidade de melhor compreender a netnografia, isso \u00e9, o campo de estudos que analisa o comportamento humano em grupos sociais na internet e, por extens\u00e3o, entender e aceitar o outro, ampliando nossa sociabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Comprovando tais impress\u00f5es, John C. Beck e Mitchell Wade destacaram, em 2006, o poder transformador dos games, afirmando que \u201cas crian\u00e7as estavam brincando com uma das mais poderosas tecnologias de informa\u00e7\u00e3o de todos os tempos. Nem toda nova tecnologia de informa\u00e7\u00e3o \u00e9 capaz de mudar o mundo, mas muitas delas o fizeram. [\u2026] Assim como outras tecnologias, os games s\u00e3o ferramentas de informa\u00e7\u00e3o. Sabemos, a partir de casos t\u00e3o ancestrais quanto a ado\u00e7\u00e3o do alfabeto, que as ferramentas de informa\u00e7\u00e3o comprovadamente mudam a forma como as pessoas pensam e se comportam\u201d. O texto \u00e9 parte da obra The Kids are Alright: How the Gamer Generation is Changing the Workplace.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De fato, como indica S\u00e9rgio Bairon, pode-se concluir que, at\u00e9 mesmo por meio da atividade l\u00fadica mais prosaica, o processo educativo encontra campo muito mais f\u00e9rtil para sedimentar o conhecimento: \u201cJean Piaget, estudando um grupo de estudantes su\u00ed\u00e7os que ia extremamente mal no aprendizado da gram\u00e1tica francesa, descobriu que eles passavam boa parte do dia jogando bolinha de gude, mas o mais surpreendente \u00e9 que a soma das regras de todos os jogos que cada um dominava era muito maior que cont\u00e9m a gram\u00e1tica da l\u00edngua francesa.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para al\u00e9m do pensamento reducionista, que pode restringir esses saberes ao resultado da intera\u00e7\u00e3o entre a humanidade e os jogos digitais, os princ\u00edpios sociais e educativos est\u00e3o presentes tamb\u00e9m nos jogos anal\u00f3gicos desde antes do in\u00edcio da civiliza\u00e7\u00e3o, como nos apresenta Huizinga: \u201cO jogo \u00e9 fato mais antigo que a cultura, pois esta, mesmo em suas defini\u00e7\u00f5es menos rigorosas, pressup\u00f5e sempre a sociedade humana [\u2026] O ritual teve origem no jogo sagrado, a poesia nasceu do jogo e dele se nutriu, a m\u00fasica e a dan\u00e7a eram puro jogo [\u2026] Da\u00ed necessariamente se conclui que em suas fases mais primitivas a cultura \u00e9 jogo.\u201d [Homo Ludens \u2013 Johan Huizinga, 1938]<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Educa\u00e7\u00e3o, cidadania e cultura s\u00e3o, portanto, valores sociais claramente incorporados por meio dos jogos digitais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Esse texto \u00e9 baseado em palestra sobre <a href=\"https:\/\/pt.slideshare.net\/cyberkao\/palestra-games-e-educao-fatec-2011\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Games e processos educativos<\/a>, realizada em Meetup com o grupo Games for Change Latin America, na Fatec de Carapicu\u00edba, em 27 de outubro de 2011.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Imagem: fotomontagem | reprodu\u00e7\u00e3o de Jogos Infantis, obra de Pieter Brueghel (1560)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As reflex\u00f5es podem auxiliar designers a ver seus trabalhos n\u00e3o apenas como divers\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":3218,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[594,225,7],"tags":[595,216,101,42,8,58,64,66],"class_list":["post-3217","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura-geek","category-game-cultura","category-indie-games-brasileiros","tag-cultura-geek","tag-game-cultura","tag-game-dev","tag-games-brasileiros","tag-indie-br","tag-indie-games","tag-opiniao","tag-pra-pensar"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/indiebrasilis.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3217","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/indiebrasilis.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/indiebrasilis.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/indiebrasilis.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/indiebrasilis.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3217"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/indiebrasilis.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3217\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3231,"href":"http:\/\/indiebrasilis.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3217\/revisions\/3231"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/indiebrasilis.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/3218"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/indiebrasilis.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3217"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/indiebrasilis.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3217"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/indiebrasilis.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3217"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}